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terça-feira, 23 de março de 2010

Dom Oscar Romero. Mártir da Igreja e ícone da luta por justiça

Por: Mônica Bussinger (Jornalista - Jornal de Opinião)

Os 30 anos do assassinato do bispo de San Salvador são lembrados como sinais de esperança na América Latina e no mundo.

Um atirador de elite do Exército salvadorenho invade a capela do Hospital da Divina Providência (o Hospitalito, instituição que ainda cuida de pacientes com câncer) e com um tiro certeiro interrompe a celebração da Eucaristia. Dom Oscar Arnulfo Romero, bispo de San Salvador, tomba executado pelas forças de Direita que ainda dominavam o país, como ocorria em toda a América Latina. Era 24 de março de 1980, tempo de quaresma.

O mundo se volta para El Salvador e o sangue do sacerdote suscita sentimentos de indignação e revolta à opressão vivida pelo povo salvadorenho. Tem início a guerra civil que duraria até 1992. O bispo que repetiu o gesto de Cristo, morrendo pelo seu povo e pela coerência com o Evangelho, ao contrário do que planejaram seus opositores, não deixa o embate político em prol da população (especialmente dos camponeses). O momento histórico testemunha a profecia do próprio dom Oscar Romero ao afirmar: "Se me matam, ressuscitarei na luta do povo salvadorenho". O bispo de San Salvador torna-se então mártir da Igreja e ícone da luta pela justiça em seu país e em toda aquela região.

Os 30 anos do assassinato de dom Oscar Romero, comemorados em 24 de março de 2010, denunciam ainda a impunidade que campeia na história da América Latina. O mandante do crime, o major Roberto D'Aubuisson, fundador do partido Aliança Republicana Nacionalista (ARENA, de direita), que governou o país entre 1989 e 2009, morre em 1992, sem sequer responder a processo.

Dos acordos de paz à vitória da esquerda
A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) fundada em 1980 como grupo guerrilheiro, passou a reunir as facções de esquerda: Forças Populares de Liberatação Farabundo Martí (FPL), Exército Revolucionário do Povo (ERP), Resistência Nacional (RN), Partido Comunista Salvadorenho (PCS) e Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centroamericanos (PRTC). O nome escolhido para a coalizão homenageia o líder comunista Farabundo Martí, fundador e dirigente do PCS em 1930.

A antiga guerrilha converteu-se em partido político após os acordos de paz de Chapultepec (México), que colocaram ponto final nos doze anos de uma terrível guerra civil. No período, setenta e cinco mil pessoas foram mortas. Dados da Comissão de Verdade criada pelas Nações Unidas, apontam que 85 por cento dos assassinatos foram cometidos pelo Exército e esquadrões da morte, apoiados financeiramente pelos Estados Unidos e cinco por cento pela guerrilha.

Dezessete anos depois de ter deposto as armas, a FMLN elegeu, em 15 de março de 2009, o jornalista Mauricio Funes como presidente de El salvador. De tendência social-democrata, ele não participou da luta armada. Em contrapartida, o vice-presidente, Salvador Sánchez Cerén, esteve no comando da guerrilha.

A vitória da Frente varreu do poder a Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido de extrema-direita fundado por Roberto d'Aubuisson (mandante do assassinato de dom Oscar Romero). As outras duas formações conservadoras derrotadas que haviam se aliado à ARENA eram o Partido de Conciliação Nacional (PCN), representante dos governos militares (1961-1976), e o Partido Democrata Cristão (no poder entre 1984 e 1989).

A aliança de partidos conservadores conduziu uma "campanha de medo", com apoio dos veículos de comunicação que se utilizavam da linguagem arcaica da Guerra Fria. A estratégia, entretanto, não convenceu a população. Nas urnas, o povo consagrou a FMLN como principal força política do país, mesmo sem ser maioria da Assembleia Nacional, ao eleger um presidente de centro-esquerda.

A guinada no quadro político, conforme avaliam especialistas, foi alavancada pela precária situação social. Só para se ter uma ideia da realidade local, dos 5,7 milhões de habitantes mais de 2,5 milhões de cidadãos se viram obrigados a emigrar, em busca de melhor sorte nos Estados Unidos. Quase metade da população vive abaixo da linha de pobreza e 20 por cento na extrema miséria. O quadro se completa com o desemprego em massa e com a maior taxa de homicídios do continente: 68 assassinatos por cem mil habitantes.

União nacional por um país melhor
O atual arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar Alas, fez um convite à população para que se una ao governo na luta contra a violência e, assim, impeça que o Estado desapareça. Durante entrevista coletiva, dom Escobar afirmou que atualmente o país ainda vive situação de violência inconcebível. Ele condenou os dois recentes massacres no país, nos quais doze pessoas morreram e tiveram os corpos mutilados. "Não vamos perder a fé, não vamos perder a esperança". El Salvador encerrou 2009 com 4.365 homicídios, com média de 12 mortes violentas por dia. Os números se aproximam dos apurados após a guerra civil, em 1992. Este ano, as estatísticas policiais, apontam aumento no número de mortes violentas, com a média de 13 ao dia.

 
A TRAJETÓRIA DE DOM OSCAR ROMERO
• 1917 - Nasce Oscar Arnulfo Romero em uma família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador).
• 1931- Aos 14 anos o menino Oscar ingressa no seminário, mas seis anos depois se afasta para ajudar a família que estava com dificuldades. Passa a trabalhar nas minas de ouro com os irmãos. Retoma os estudos e é enviado a Roma para estudar teologia.
• 1942 - Ordenado sacerdote, volta a El Salvador e assume uma paróquia do interior. Logo é transferido para a catedral de San Miguel, onde fica por 20 anos. Sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, pobre, dedica-se a obras de caridade, mas sem engajamento reconhecidamente social.
• 1966 - Dom Oscar assume como secretário da Conferência Episcopal de El Salvador.
• 1970 - É nomeado bispo auxiliar de San Salvador. O bispo dom Luis Chávez y Gonzalez busca atualizar a linha pastoral de acordo com o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín. Romero não se identifica integralmente com a linha pastoral proposta, revelando-se conservador.
• 1974 - É nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria, em meio a um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.
• 1975 - A Guarda Nacional executa cinco camponeses e dom Romero celebra missa em intenção das vítimas. Ele não faz denuncia explícita do crime, mas escreve uma carta severa ao presidente Molina.
• 1977 - A nomeação de dom Oscar Romero como bispo de El Salvador desagrada os setores renovadores. Mas em 12 de março é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, engajado na luta do povo e ligado a dom Oscar. Este é o momento em que ele reavalia sua posição e se coloca corajosamente junto aos oprimidos, denunciando a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos Estados Unidos. O bispo denuncia também a violência da guerrilha revolucionária. Suas homilias são transmitidas pela rádio católica dando esperança à população e provocando a fúria dos governantes.
• 1978 - É homenageado com o título de doutor honoris causa das Universidades de Georgetown (EUA) e de Louvain (Bélgica).
• 1979 - Em outubro, um golpe de Estado depõe o ditador Humberto Romero. Uma junta de civis e militares assume o poder, e nesse cenário, exército e organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles sacerdotes). A guerrilha retalia com execuções sumárias.
• 1980 - Em 17 de fevereiro, dom Romero escreve ao presidente dos EUA, Jimmy Carter. O bispo faz um apelo para que ele não envie ajuda militar e econômica ao governo salvadorenho, para não financiar a repressão ao povo.
• 1980 - Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: "Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (...). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!" Estas foram as últimas palavras do bispo ao país.
• 1980 - Em 24 de março, dom Oscar Romero é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência.
• 1994 - Abre-se o processo de canonização de dom Romero em San Salvador.
• 1997 - O processo passa para a Congregação das Causas dos Santos em Roma.
• 2010 - Em 24 de fevereiro, 30 anos da morte de dom Oscar Romero, Organizações sociais e religiosas apresentaram ao Parlamento salvadorenho petição para instituir 24 de março como "Dia Nacional de dom Oscar Arnulfo Romero".

(Publicado no Jornal de Opinião, n. 1084 - 22 a 28 de Março/2010 - Páginas 8 e 9.)

Fontes: http://www.adital.com.br/ e http://www.revistamissoes.org/

segunda-feira, 22 de março de 2010

‘A Igreja precisa de uma reforma urgente’, afirma jesuíta egípcio em carta dirigida a Bento XVI

O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo.
Henri Boulad é autor de Deus e o mistério do tempo (Loyola, 2006) e O homem diante da liberdade (Loyola, 1994), entre outros.
A carta está publicada no sítio Religión Digital, 31-01-2010. A tradução é do Cepat.  Eis a carta:


Santo Padre:

Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus” a que São Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.

Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.

Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de Teologia no Cairo, diretor da Cáritas-Egito e vice-presidente da Cáritas Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.

Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos de suas reuniões como Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica... Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais, rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.

Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido Gottessöhne, Gottestöchter (Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o Pe. Erich Fink, da Baviera, lhe fez chegar em suas mãos.

Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua situação atual, em 2009.

Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):

1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para frear o êxodo.

2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da Ásia ou da África.

3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem – cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo, mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.

4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova evangelização”, a que nos convidava João Paulo II. Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje.

5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente. Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a palavra “mística” não é mencionada uma única vez no Novo Catecismo. Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral, abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.

6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa, têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou.

7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade, sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano... em uma linha mais evangélica.

8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos, parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa.

9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo, no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra ela.

10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste momento.

Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:

– Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.

– Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por acaso, não tem promessas de vida eterna?

A isto respondo:

– Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os problemas de hoje e de amanhã.

– A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas crises que a velha cristandade europeia conheceu.

– A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as portas que se abriram então, e é tentada a voltar para Trento e o Vaticano I, mais que voltar-se para o Vaticano III. Recordemos a declaração de João Paulo II tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o Vaticano II”.

– Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando ad calendas graecas uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?

– Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto, o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.

– Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf! A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se acelera.

– Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza todas as suas energias para superar a crise.

– Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?

– Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu outras crises no passado?

– Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz...”.

Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma tripla reforma:

1. Uma reforma teológica e catequética para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos contemporâneos. Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.

2. Uma reforma pastoral para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.

3. Uma reforma espiritual para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma dimensão existencial e articulá-los com a vida.

Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus nos trate de “sepulcros caiados”?

Para terminar, sugiro a convocação de um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria três anos, terminaria com uma Assembleia Geral – evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e tirasse daí as conclusões.

Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro Jesus de Nazaré, que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.

Seu afetíssimo no Senhor,

Pe. Henri Boulad, SJ



Entrevista com "Hilário Dick : Juventude: idêntica e diferente"

Por: Patricia Fachin

IHU On-Line - O senhor desenvolve trabalhos com a juventude há 35 anos. Como percebe a realidade dos jovens, atualmente? A juventude, nesse período, mudou muito a sua postura política e social?

Hilário Dick - Muitos educadores trabalham com jovens há mais de 35 anos. A novidade talvez esteja na maneira como estou nesse campo, de algum modo fora de instituições como a escola, a universidade (pelo menos como professor) e, até, como pai de família ou vigário de alguma paróquia. Embora trabalhe em instituições formais de educação da juventude, o que caracteriza a minha missão é o espaço informal, aonde os “clientes” vão porque querem, como opção pessoal e não como obrigação da sociedade, da família e do próprio sistema. Secundarizei a carreira magisterial formal para exercer o magistério de outro modo. Atrevo a chamar-me, de educador de jovens através de cursos, encontros, escritos, pesquisas, assembléias, retiros, acompanhamento de grupos e de coordenações, formação de assessores/as de jovens etc. Esta informalidade tem muito a ver com desvio social, procurando fazer o mesmo de outra forma, em desvios necessários para qualquer instituição. Essa outra forma na intervenção e no estudo de jovens faz que a percepção da realidade juvenil seja outra. Oportuniza-se a possibilidade de ouvir um outro discurso juvenil, cuja alteridade é necessária para uma visão integral.

Assim como tivemos um feudalismo, temos agora um lento (rápido?) caminho capitalista, onde os valores norteadores vão tomando feições específicas. Essa mudança vivida por todos é diferente no adulto e no jovem. Este pega o trem andando. Andamos no mesmo trem, mas as estações de embarque são diferentes. O que alguns já viram faz pensar que a “próxima estação” seja semelhante. O mesmo não ocorre com os que estão embarcando pela primeira vez. Vêem coisas que os antigos são levados a não ver. Estar aberto a esta novidade do não visto nem vivido é um desafio que se apresenta para qualquer educador de jovens. A beleza está na capacidade de não estar carregando somente velharias ou caminhos já feitos. Assim como a eterna novidade pode ser um mal, a eterna velhice é, certamente, uma desgraça. É o que me faz pensar que a juventude é sempre o idêntico e o diferente. A história ensina que o estabelecido, o já vivido etc., tem a tendência de acomodar-se porque o novo, além de ser imprevisível e inseguro, incomoda. Mesmo que saibamos que tudo é processo, existe um gosto profundo na acomodação porque somos levados a pensar que o mistério não existe. A convivência com a juventude em ambiente informal, por isso, marcou-me e me marca e me faz, também, social e politicamente inquieto.

IHU On-Line - É possível traçar um perfil único de jovem do século XXI? Em que medida as diferenças de classe criam universos juvenis diferentes?

Hilário Dick - Sem deixar de dizer que precisamos de parâmetros para a análise da realidade juvenil, a juventude não existe. Sem acreditar que se impõe a impossibilidade de falar validamente de coisas genéricas, o que faz a diferença não é só o lado econômico. É preciso ter presente – dentro de um parâmetro - os aspectos psicológico, cultural, sociológico, biológico (cronológico), o jurídico e – uma descoberta mais recente – o teológico. Claro que há universos juvenis diferentes, mas se complementam. O “relógio da biologia” feminina, por exemplo, não é o mesmo no rapaz e na menina; uma menina ou um rapaz da periferia pobre não é o mesmo do rapaz do centro; um jovem negro ou uma jovem negra não é o mesmo de um jovem ou uma menina brancos; a geração dos anos 1960 não é a mesma da geração de 2004; o/a jovem do interior do sertão nordestino não é o/a mesmo/a do/a jovem que nasceu em Blumenau, divertindo-se com roupas típicas na Oktoberfest. A juventude é a mesma? Repito: precisamos de parâmetros.
IHU On-Line - 68% dos jovens entrevistados pelo Datafolha são favoráveis à criminalização do aborto, 50% defendem a pena de morte, 72% são favoráveis à criminalização da maconha. Esses percentuais demonstram que o jovem brasileiro está mais conservador?

Hilário Dick - A pesquisa apresenta a postura dos/as jovens sob vários aspectos: o aborto, a pena de morte, a maconha, a idade mínima para ir à prisão (redução da maioridade penal), o acompanhamento ao noticiário político, a postura política e sobre a importância de 11 itens (família, saúde, trabalho, estudo, lazer, amigos, religião, sexo, dinheiro, beleza e casamento), contexto em que aparecem as percentagens apontadas. Olhando esse quadro, podemos dizer que os valores que estão no topo são a família, a saúde, o trabalho e o estudo (todos acima de 90%) e que os que estão na base são o dinheiro, a beleza e o casamento (na base dos 70%). No meio desses dois extremos, um tanto perdidos, estão o lazer, os amigos, a religião e o sexo. Pode-se dizer que há discursos estranhos com relação ao significado do dinheiro e da beleza (aparência) e com relação à importância que tem o lazer, os amigos, a religião e o sexo – assuntos que mereceriam aprofundamento. Os dados citados não revelam conservadorismo; revelam falta de amadurecimento. As respostas são da “flor da pele”; não são de raiz porque foram induzidas.
IHU On-Line - Como compreender que 68% dos jovens defendem a criminalização do aborto e em contra partida, 46% são favoráveis à idade penal entre 16 e 17 anos?
Hilário Dick - Os jovens, apesar de tudo, não deixam de repetir – principalmente em assuntos como estes – o que a sociedade e o sentimento são levados a dizer e, de modo muito especial, o que os meios de comunicação social apresentam como vontade popular. Qual a opinião que eles encontram com adultos, educadores sobre este assunto? Qual a argumentação que bebem para irem amadurecendo seu posicionamento? Quem é, nesse assunto, conservador? Quem colocou no meio do campo a discussão de que a diminuição da maioridade penal seria a solução? Certos assuntos não se resolvem pela percentagem de opiniões, mas de formação de consciências.
IHU On-Line - O jovem do século XXI ainda trata questões referentes à sexualidade e ao aborto como um tabu?
Hilário Dick – Mesmo que pareça que não, há sintomas que dizem que sim. Voltando à pesquisa do Datafolha, ela fez duas perguntas para as mulheres: se elas já fizeram aborto e se alguma amiga delas já fez aborto. O resultado é estranho: se somente 4% admitem que já fizeram aborto (as que mais admitem são as que têm de 22 a 25 anos), 33% afirmam saber de amigas que fizeram e 57% dizem não ter informação sobre isso. Seria medo ou certo tipo de solidariedade, procurando esconder o que sabem? No mínimo, estamos frente a um tabu, mesmo que signifique falta de informação. Por outro lado, pesquisar a vivência sexual da maneira como se vê, também em pesquisas, muitas vezes como mera curiosidade, não é tabu?
IHU On-Line - Como o senhor percebe a atuação política dos jovens brasileiros? O fato de eles não estarem engajados com tanta veemência nos partidos políticos demonstra uma apatia política, ou pelo contrário, isso significa que eles estão buscando outras maneiras de “fazer política”?
Hilário Dick – Respondo com dados que a pesquisa oferece. Ela fez duas perguntas: uma sobre que tipo de organização o/a jovem participa e outra sobre a religião deles/as. Por um lado, vemos que 45% afirmam que não participa e, por outro, vemos que 39% participam das igrejas, 24% de trabalho voluntário, 12% de organizações ecológicas, 18% de entidades estudantis, 7% de partidos políticos etc. Para a minha matemática, estes dados significam que 55% de jovens se afirmam partícipes e ser partícipe é ser político. A apatia juvenil é afirmada por quem ainda não aprendeu ou não quer aprender a ler os discursos que os jovens fazem.

IHU On-Line – Você relacionaria essas reflexões com o que escreve em “Emergências e percepção de novos valores na juventude”?

Hilário Dick - Um desafio que se apresenta, tratando de juventude, é o da capacidade não só de saber ver emergir alguns fenômenos juvenis, mas saber perceber o significado dessa emergência. A reflexão completa que faço sobre isso pode ser encontrada no blog do Observatório Juvenil do Vale (www.observatoriojuvenildovale.Blogspot.com). O Maio de 68, por exemplo, emergiu mundialmente de forma impressionante. Até hoje se está percebendo o que sucedeu 40 anos atrás. Trata-se de entender o discurso da juventude não só no que eles defenderam, escreveram, mas também no que fizeram e nem sabiam o que estavam dizendo. Lendo as percentagens de uma pesquisa estamos querendo ler um discurso. Por isso, na pesquisa sobre a emergência de valores na juventude de São Leopoldo (RS), intitulamos a publicação da leitura dos dados de “Discursos à beira do Sinos”; numa outra pesquisa em andamento, estamos querendo ler a percepção dos/as jovens sobre a violência. É a importância do “discurso”. Estou convicto, além disso, de que na leitura que se faz sobre a realidade juvenil não pode faltar a vontade de entender “as sementes ocultas do Verbo” (Vaticano II, Gaudium et Spes) manifestando-se na juventude, sendo a juventude um “lugar” ou uma “realidade” teológica. Uma qualidade do pesquisador sobre juventude é estar encantado com ela, o que não rouba, mas enriquece a objetividade científica que precisa haver no estudo da realidade juvenil.

IHU On-Line - Que importância o jovem atribui à aparência? Em que medida esse percentual pode ser analisado como negativo ou positivo para a juventude?

Hilário Dick - Pela idade e pelo momento que o/a jovem vive a aparência é fundamental. Eles gostam e têm direito de aparecer para dizer que “estão aí” e que são bonitos/as. O consumo, contudo, se aproveita disso e todos vemos a importância que vai tendo o corpo. A utopia social é substituída pela utopia corpórea. A utopia sou eu mesmo; o outro/a não existe. A utopia é o próprio umbigo. É o uso ideológico do corpo juvenil. O item da aparência merece duas páginas da Folha de S. Paulo, embora tenham sido feitas somente cinco questões relacionadas à aparência e que não deixam de sair do campo do exótico: a aparência em geral, o peso, as partes do corpo dos quais o/a jovem gosta mais e menos, sobre o desejo de fazer plástica e sobre algum tipo de atividade física. Impressiona a pormenorização das partes que os jovens querem mais e menos, do cabelo aos pés. Se a auto-estima é fundamental, a auto-estima que se vê fomentada é uma desgraça.
IHU On-Line - O que esse “espírito jovem” lhe ensinou até agora?
Hilário Dick - Se entendi bem a pergunta, ela se refere ao proveito que se tira no trabalho com a juventude no espaço informal. Todos deveriam ter, na vida, uma causa. Uma causa que seja compromisso e fonte de realização. Uma causa que não seja algo externo. Ela se deve enraizar nas entranhas. Ela precisa ser “comida” e “ruminada” todo dia. Assim como nos alimentamos nela, ela nos “come” e nos “rumina”. É uma dimensão da vida que, apesar de ser vivida por um/a idoso/a, ajuda a sabermos ver, em tudo, a novidade do mistério que é o universo. O/A jovem não quer ver no adulto alguém que se iguale com ele/a, mas alguém no qual podem ler, na velhice do universo, no/a adulto/a, no avô ou na avó, que a vida é novidade. Diria que amar a juventude é uma graça e a graça não se compra nem é fruto de uma atitude meramente voluntarista.

Mensagem de Bento XVI para a Jornada Mundial da Juventude - 28/03/2010

 "Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17)

Queridos amigos,

este ano marca o vigésimo quinto aniversário de instituição da Jornada Mundial da Juventude, desejada pelo Venerável João Paulo II como encontro anual de jovens crentes do mundo inteiro. Foi uma iniciativa profética que rendeu frutos abundantes, permitindo às novas gerações cristãs encontrarem-se, entrarem em atitude de escuta da Palavra de Deus, de descobrir a beleza da Igreja e de viver experiências fortes de fé que levaram muitos à decisão de entregar-se totalmente a Cristo.

A presente XXV Jornada representa um passo rumo ao próximo Encontro Mundial dos jovens, que será realizado em agosto de 2011 em Madrid, onde espero que sejam muitos a viver este momento de graça.

Para preparar-nos a essa celebração, desejo propor-vos algumas reflexões sobre o tema deste ano: "Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17), tirado do episódio evangélico do encontro de Jesus com o jovem rico; um tema já abordado, em 1985, pelo Papa João Paulo II em uma belíssima carta, dirigida pela primeira vez aos jovens.

1. Jesus encontra um jovem

"Tendo [Jesus] saído para se pôr a caminho, - conta o Evangelho de São Marcos - veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: 'Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?'. Jesus disse-lhe: 'Por que me chamas bom? Só Deus é bom. Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe'. Ele respondeu-lhe: 'Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade'. Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: 'Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me'. O jovem entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens" (Mc 10, 17-22).

Esta história expressa de modo eficaz a grande atenção de Jesus pelos jovens, por vós, por vossas expectativas, vossas esperanças, e mostra o quão grande é o seu desejo de encontrar-vos pessoalmente e dialogar com cada um de vós. Cristo, de fato, interrompe seu caminho para responder à pergunta de seu interlocutor, manifestando plena disponibilidade para aquele jovem, que é movido por um ardente desejo de falar com o "Bom Mestre", para aprender d'Ele a percorrer a estrada da vida. Com esse trecho evangélico, o meu Predecessor desejava exortar cada um de vós a "desenvolver o próprio colóquio com Cristo, um colóquio que é de importância fundamental e essencial para um jovem" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 2).

2. Jesus o olhou e o amou

No relato evangélico, São Marcos salienta como "Jesus fixou nele o olhar e o amou" (cf. Mc 10, 21). No olhar do Senhor está o coração deste especialíssimo encontro e de toda a experiência cristã. De fato, o cristianismo não é primariamente uma moral, mas experiência de Jesus Cristo, que nos ama pessoalmente, jovem ou velho, pobre ou rico; nos ama mesmo quando lhe viramos as costas.

Comentando a cena, o Papa João Paulo II acrescentava, dirigindo-se a vós, jovens: "Desejo que experimenteis um olhar assim. Desejo que experimenteis a verdade de que Cristo os olha com amor" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 7). Um amor, manifestado a nós sobre a Cruz de maneira plena e total, que faz São Paulo escrever com espanto: "Me amou e se entregou por mim" (Gal 2,20). "A consciência de que o Pai sempre nos amou em seu Filho, de que Cristo ama a cada um e sempre - escreve agora o Papa João Paulo II -, se converte em un sólido ponto de apoio para toda nossa existência humana" (Ibid, n. 7), e nos permite superar todos as provas: a descoberta de nossos pecados, o sofrimento, o desânimo.

Neste amor se encontra a fonte de toda a vida cristã e a razão fundamental da evangelização: se temos verdadeiramente encontrado Jesus, não podemos deixar de testemunhá-lo àqueles que ainda não encontraram o seu olhar!

3. A descoberta do projeto de vida

No jovem do Evangelho, podemos perceber uma condição muito similar àquela de cada um de vós. Também vós sois ricos de qualidade, de energias, de sonhos, de esperanças: recursos que vós possuís em abundância! A vossa própria idade se constitui uma grande riqueza, não somente para vós, mas também para os outros, para a Igreja e para o mundo.

O jovem rico pergunta a Jesus: "O que devo fazer?". A estação da vida em que estais imersos é tempo de descoberta: dos dons que Deus vos deu e das vossas responsabilidades. É, também, tempo de escolhas fundamentais para construir o vosso projeto de vida. É o momento, pois, de interrogar-vos sobre o autêntico sentido da existência e de perguntar-vos: "Estou satisfeito com minha vida? Está faltando alguma coisa?".

Como o jovem do Evangelho, talvez vós viveis situações de instabilidade, de turvamento ou de sofrimento, que vos levais a aspirar a uma vida que não seja medíocre e a perguntar-vos: em que consiste uma vida bem sucedida? O que devo fazer? Qual poderia ser o meu projeto de vida? "O que devo fazer para que minha vida tenha pleno valor e pleno sentido?" (Ibid., n. 3).

Não tenhais medo de afrontar essas questões! Longe de oprimir-vos, elas expressam as grandes aspirações que estão presentes no vosso coração. Portanto, devem ser ouvidas. Elas aguardam respostas que não sejam superficiais, mas capazes de atender às vossas autênticas expectativas de vida e de felicidade.

Para descobrir o projeto de vida que pode fazer-vos plenamente feliz, colocai-vos em escuta a Deus, que tem o seu plano de amor por cada um de vós. Com confiança, perguntai-lhe: "Senhor, qual é o teu plano de Criador e Pai sobre minha vida? Qual é a tua vontade? Eu desejo realizá-la". Tenhais certeza de que Ele vos responderá. Não tenhais medo de sua resposta! "Deus é maior que nosso coração e conhece todas as coisas" (1 Jo 3, 20)!

4. Vem e segue-me!

Jesus convida o jovem rico a ir muito além da satisfação de suas aspirações e de seus projetos pessoais, ele diz: "Vem e segue-me!". A vocação cristã surge de uma proposta de amor do Senhor e somente pode se realizar graças a uma resposta de amor: "Jesus convida os seus discípulos ao dom total da sua vida, sem cálculos nem vantagens humanas, com uma confiança em Deus sem hesitações. Os santos acolhem este convite exigente, e põem-se com docilidade humilde no seguimento de Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição, na lógica da fé por vezes humanamente incompreensível, consiste em não colocar a si mesmos no centro, mas em escolher ir contra a corrente vivendo segundo o Evangelho" (Homilia durante Canonização de cinco beatos, 11 de outubro de 2009).

Seguindo o exemplo de muitos discípulos de Cristo, também vós, queridos amigos, acolheis com alegria o convite para o discipulado, para viver intensamente e de modo frutífero neste mundo. Com o Batismo, de fato, ele chama cada um a segui-Lo com ações concretas, a amá-Lo acima de todas as coisas e a servi-Lo nos irmãos. O jovem rico, infelizmente, não aceitou o convite de Jesus e foi embora triste. Não tinha encontrado a coragem de romper com os bens materiais para encontrar o bem maior proposto por Jesus.

A tristeza do jovem rico do Evangelho é aquela que nasce no coração de cada um quando não se tem a coragem de seguir a Cristo, de fazer a escolha certa. Mas nunca é tarde demais para responder-Lhe!

Jesus não se cansa de dirigir o seu olhar de amor e chamar para ser seus discípulos, mas Ele propõe a alguns uma escolha mais radical. Neste Ano Sacerdotal, desejo exortar os jovens e os rapazes a estarem atentos se o Senhor convida para um dom maior, na via do Sacerdócio ministerial, e a permanecer disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de especial predileção, traçando, com a ajuda de um sacerdote, do diretor espiritual, o necessário caminho de discernimento. Não tenhais medo, então, queridos jovens e queridas jovens, se o Senhor vos chama à vida religiosa, monástica, missionária ou de especial consagração: Ele sabe doar profunda alegria àqueles que respondem com coragem!

Convido, também, aqueles que sentem a vocação para o matrimônio a acolhê-la com fé, empenhando-se em colocar uma base sólida para viver um amor grande, fiel e aberto ao dom da vida, que é riqueza e graça para a sociedade e para a Igreja.

5. Orientai-vos rumo à vida eterna

"Que devo fazer para alcançar a vida eterna?". Essa questão do jovem do Evangelho parece distante das preocupações de muitos jovens contemporâneos, porque, como observava o meu Predecessor, "não somos nós a geração a que o mundo e o progresso temporal enchem completamente o horizonte da existência?" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 5). Mas a pergunta sobre a "vida eterna" surge em particulares momentos dolorosos da existência, quando vivenciamos a perda de alguém próximo ou quando vivemos a experiência do fracasso.

Mas o que é "vida eterna", a que se refere o jovem rico? Jesus a ilustra quando, voltando-se a seus discípulos, afirma: "Hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria" (Jo 16, 22). São palavras que indicam uma proposta exaltante de felicidade sem fim, da alegria de ser preenchido pelo amor divino para sempre.

Interrogar-se sobre o futuro definitivo que aguarda a cada um de nós dá sentido pleno à existência, porque orienta o projeto de vida rumo a horizontes não limitados e passageiros, mas amplos e profundos, que levam a amar o mundo, tão amado por Deus mesmo, a dedicar-nos ao seu desenvolvimento, mas sempre com a liberdade e a alegria que nasce da fé e da esperança. São horizontes que ajudam a não absolutizar a realidade terrena, sentindo que Deus nos prepara um perspectiva mais ampla, e a repetir com Santo Agostinho: "Desejamos a pátria celeste, suspiramos pela pátria celeste, nos sentimos peregrinos aqui na terra" (Comentário ao Evangelho de São João, Homilia 35, 9). Mantendo os olhos fixos na vida eterna, o Beato Pier Giorgio Frassati, que morreu em 1925, com 24 anos, disse: "Desejo viver e não subsistir!", e sobre a foto de uma escada, enviada a um amigo, escreveu: "Para o alto", aludindo à perfeição cristã, mas também à vida eterna.

Queridos jovens, exorto-vos a não esquecer essa perspectiva em vosso projeto de vida: somos chamados à eternidade. Deus nos criou para estar com Ele, para sempre. Isso vos ajudará a dar sentido pleno às vossas escolhas e a agregar qualidade à vossa existência.

6. Os mandamentos, via do amor autêntico

Jesus recorda ao jovem rico os dez mandamentos como condições necessárias para "alcançar a vida eterna". Eles são pontos de referência essenciais para viver no amor, para distinguir claramente o bem do mal e construir um projeto de vida sólido e duradouro. Também a vós, Jesus pergunta se conheceis os mandamentos, se vos preocupais em formar a vossa consciência segundo a lei divina e se a colocais em prática.

Naturalmente, trata-se de perguntas contra a corrente em relação à mentalidade atual, que propõe uma liberdade desvinculada de valores, de regras, de normas objetivas e convida a rejeitar todos os limites em nome dos desejos do momento. Mas este tipo de proposta, ao invés de conduzir à verdadeira liberdade, leva o homem a se tornar um escravo de si mesmo, de seus desejos imediatos, dos ídolos como o poder, o dinheiro, o prazer desenfreado e as seduções do mundo, tornando-o incapaz de seguir a sua vocação original ao amor.

Deus nos dá os mandamentos porque deseja educar-nos à verdadeira liberdade, porque quer construir conosco um Reino de amor, de justiça e de paz. Escutá-los e colocá-los em prática não significa se alienar, mas encontrar o caminho da liberdade e do amor autêntico, porque os mandamentos não limitam a felicidade, mas indicam como encontrá-la. Jesus, no início do diálogo com o jovem rico, recorda que a lei dada por Deus é boa, porque "Deus é bom".

7. Temos necessidade de Vós
Quem vive hoje na condição de jovem se encontra afrontado por muitos problemas decorrentes do desemprego, da falta de referências ideais corretas e de perspectivas concretas para o futuro. Às vezes, pode-se ter a impressão de que se é impotente diante das crises e desvios atuais. Apesar das dificuldades, não percais a coragem e não renuncieis a vossos sonhos! Ao contrário, cultiveis no coração o grande desejo de fraternidade, justiça e paz. O futuro está nas mãos de quem sabe procurar e encontrar razões fortes de vida e de esperança. Se quiserdes, o futuro está em vossas mãos, porque os dons e as riquezas que o Senhor incutiu no coração de cada um de vós, plasmados no encontro com Cristo, podem trazer autêntica esperança ao mundo! É a fé no seu amor que, tornando-vos fortes e generosos, vos dará a coragem de afrontar com serenidade o caminho da vida e assumir responsabilidade familiar e profissional. Empenhai-vos a construir o vosso futuro através de um sério percurso de formação pessoal e de estudo, para servir de modo competente e generoso ao bem comum.

Na minha recente Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral, Caritas in veritate, elenquei alguns grandes desafios atuais, que são urgentes e essenciais para a vida deste mundo: o uso dos recursos da terra e o respeito da ecologia, a justa divisão dos bens e o controle dos mecanismos financeiros, a solidariedade com os Países pobres no âmbito da família humana, a luta contra a fome no mundo, a promoção da dignidade do trabalho humano, o serviço à cultura da vida, a construção da paz entre os povos, o diálogo inter-religioso, o bom uso dos meios de comunicação social.

São desafios aos quais sois chamados a responder para construir um mundo mais justo e fraterno. São desafios que requerem um projeto de vida exigente e apaixonante, no qual colocar toda a vossa riqueza segundo o plano que Deus tem para cada um de vós. Não se trata de fazer gestos heroicos ou extraordinários, mas agir explorando os próprios talentos e as próprias possibilidades, empenhando-se em progredir constantemente na fé e no amor.

Neste Ano Sacerdotal, convido-vos a conhecer a vida dos santos, em particular a dos sacerdotes santos. Vejais que Deus lhes guiou e que encontraram a própria estrada dia após dia, exatamente na fé, esperança e no amor. Cristo chama cada um de vós a empenhar-se com Ele e a assumir a própria responsabilidade para construir a civilização do amor. Se seguirdes a sua palavra, também a vossa estrada se iluminará e vos conduzirá a metas elevadas, que dão alegria e sentido pleno à vida.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, vos acompanhe com sua proteção. Vos asseguro a minha lembrança na oração e, com grande afeição, vos abençoo.

Dado no Vaticano, aos 22 de fevereiro de 2010
Papa Bento XVI

quinta-feira, 18 de março de 2010

Pastoral Digital

Por: Dom Orani João Tempesta (Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ e Presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação Social da CNBB)

Fiquei em dúvida se chamaria esta nova forma de pastoral da comunicação de digital, do ciberespaço ou cibernética. Atualmente os termos envelhecem rapidamente. O tempo e os desenvolvimentos futuros dirão e escolherão os passos, caminhos e nomes para essa missão da comunicação nesta época.

Acredito que uma nova maneira de fazer pastoral de comunicação está sendo suscitada pela Igreja através da mensagem do Papa Bento XVI para o 44º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Como ocorre o Ano Sacerdotal, o tema tem essa referência, mas, sem dúvida, é dirigido a todos os católicos: "o sacerdote e a pastoral no mundo digital: as novas mídias a serviço da Palavra". Como sempre acontece no Brasil, esse dia é celebrado no Domingo da Ascensão, este ano no dia 16 de maio de 2010.

Um grande passo foi dado. Havia na cabeça e no comportamento de muitos certo medo das novas mídias ou novas ferramentas de internet, por ser esse um território livre, onde há de tudo. É um medo infundado, pois se assim o fosse não poderíamos estar no ramos dos livros e das revistas porque existem muitos livros e revistas que não são recomendáveis para os cristãos e talvez nem para as pessoas de certa dignidade.

Estávamos presentes nesses meios com certa timidez e até mesmo com certo temor. Sabemos, porém, que os "digitais nativos" já utilizam essas mídias com desenvoltura e naturalidade incríveis e, quando cristãos, sabem utilizar muito bem tudo isso para um trabalho evangelizador. Podemos anunciar que o desejo da Igreja é que saibamos colocar as novas mídias a serviço da Palavra, ou seja, de Cristo, fazendo agora a pastoral digital ou no mundo digital.

A nossa Comissão Episcopal enviará às Dioceses cartazes e textos com os subsídios para bem celebrar esse dia em todas as comunidades e paróquias, aliás, é o único dia criado pelo Concílio Vaticano II. Isso está no documento Inter Mirifica, um dos dois mais antigos documentos emanados do Concílio. Ele inicia, além da série de importantes documentos para a renovação da Igreja na década de sessenta, também uma orientação para os novos tempos que estavam surgindo naquela época no campo dos meios de comunicação. A Igreja tem como missão evangelizar, ou seja, comunicar a morte e ressurreição de Jesus Cristo, que foi enviado pelo Pai para nos comunicar a Sua Vontade. Se o documento conciliar é apenas indicativo, ele abriu, no entanto, os caminhos para as diferentes situações que se seguiriam posteriormente. Cada ano, os Pontífices Romanos anunciam, na festa dos Arcanjos Gabriel, Rafael e Miguel, o tema anual e publicam o texto no dia da Festa de São Francisco de Sales.

Saudamos carinhosamente os que se dedicam a essa missão, e incentivamos para que o façam com ânimo sempre renovado - de levar todos os homens e mulheres a construírem uma sociedade justa e fraterna, além de alimentar a fé do nosso povo através de escritos, filmes, Power points e tantos outros meios. Quando, neste ano, tivermos a graça de criar a "Signis Brasil", como filial da Signis Mundial, também ali deverá ter um setor para os portais de inspiração católica se filiarem, além das rádios, televisões, revistas, jornais e impressos. Atualmente temos ótimos portais de notícias ligados a grupos católicos que, além de passar os acontecimentos, formam, através de eventos e textos, as pessoas no caminho cristão. A grande questão é saber escolher a reta doutrina e aqueles que sabem construir a unidade na diversidade. Isso está entre outras iniciativas louváveis, somente para recordarmos das propostas que são colocadas diante de nossas telas de formação permanente da doutrina cristã, de anúncio da Palavra de Deus e de notícias acerca da vida da Igreja no Brasil e da vida das próprias dioceses, paróquias e comunidades.

Urge uma conversão pastoral de nossos presbíteros, como nos pede o Papa para o Dia Mundial das Comunicações, em colocar, como meta primeira de sua pastoral, a pastoral da comunicação e da acolhida, que hoje não pode prescindir de ser, também, da internet e dos meios correlatos.

Não tenho dúvidas de que a Igreja que peregrina no Brasil está fortemente amparada na vontade deliberada de dar especial apoio a todos os sites e meios eletrônicos que anunciem o Cristo Ressuscitado e que levem o homem e a mulher de nossos dias a buscar a santidade pelo conhecimento e pelo seguimento apaixonado pelo Redentor.

A todos uma bela e comprometedora celebração do Dia Mundial das Comunicações Sociais, e que isso ajude a criar ou incrementar ainda mais a Pastoral da Comunicação em nossas comunidades e abrir-nos para o diálogo com os comunicadores de nossa região.

Fonte: Rádio Vaticano

''Teologia pós-Google'': a religião na era Web

De: Mitchell Landsberg, Los Angeles Times

Como muitos norte-americanos, Doug Pagitt cresceu fora do mundo da religião organizada. Nem seus pais ou seus avós eram praticantes, e não havia expectativa de que ele seria diferente. Hoje, com seu cavanhaque, seu piercing de orelha e suas roupas na moda, ele poderia se passar facilmente por uma espécie de alternativo da Geração X que vive uma vida inteiramente secular.

Mas, aos 17 anos, Pagitt viu uma encenação da Paixão que o tocou como um raio e ele acabou se tornando um pastor cristão. Sua igreja em Minneapolis, Solomon's Porch, está marcando terreno em um novo movimento que poderia ser chamado de Igreja 2.0.

A reportagem é de Mitchell Landsberg, publicada no jornal Los Angeles Times, 15-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse foi, de fato, um dos termos usados na semana passada durante uma conferência de três dias sobre o futuro do cristianismo norte-americano na Claremont School of Theology. Pagitt estava entre os 150 ministros, leigos e acadêmicos que se reuniram para discutir a "Teologia depois do Google".

O consenso: há um mundo totalmente novo lá fora. Ignorá-lo é um risco para as Igrejas.

"Eu acho que coisas como a denominação e a ordenação fazem parte do velho sistema de controle e dominação que deve acabar", disse Pagitt, hoje com 42 anos, descansando depois do primeiro dia de conferência no Bar Teológico montado para os participantes. Ao seu redor, a cerveja fluía, e a conversa saltava do Twitter ao evangelismo, para a formação das Igrejas, até o "corn toss", um jogo com saquinhos de areia popular no Meio Oeste norte-americano e em Appalachia, que está conquistando adeptos entre os teólogos de Claremont.

A premissa da conferência foi apresentada mais cedo, durante a tarde, por Philip Clayton, professor de Claremont, que falou sobre o papel da imprensa de Gutenberg no século XV. Ao tornar a Bíblia disponível de forma mais ampla, afirmou, a religião foi democratizada, e isso levou diretamente à Reforma Protestante.

"Senhoras e senhores", disse Clayton, "hoje estamos falando sobre uma transição tão grande quanto aquela".

A escola de Claremont foi fundada pela Igreja Metodista Unida e funciona como seminário para os metodistas e para três outras denominações protestantes. Teológica e culturalmente, os participantes da conferência se inclinavam para ponta liberal do espectro. Um tema que surgiu foi se a direita cristã tem sido inteligente no uso das novas mídias e se as Igrejas progressistas precisam alcançá-la.

Mas, mais do que falar sobre como usar novas mídias e ferramentas de redes sociais, a conferência foi sobre como esses dispositivos refletem uma nova forma cultural de pensar que está mudando a maneira que as pessoas rezam. Clayton citou um recente relatório do Pew Forum on Religion and Public Life que descobriu que as pessoas na casa dos 20 anos hoje tem menos probabilidade de se afiliar a uma Igreja do que qualquer geração anterior.

Jon Irvine, um web designer de 30 anos que trabalha com o movimento da "Igreja emergente", disse que a Igreja do futuro deverá ser menos hierárquica e mais espontânea e ecumênica. Usando a fórmula familiar para acompanhar as mudanças de software, ele disse: "A Igreja 1.0 sempre teve a ver com um grande conselho de grande cérebros que se reuniam e lhe diziam: 'Fomos para uma sala e decretamos que você tem que acreditar'. A Igreja 2.0 é mais de baixo para cima. Cada homem é capaz de aprender e oferecer feedback. A Igreja 1.0 tem a ver só com credos e doutrinas, enquanto a Igreja 2.0 é uma espécie de wiki-teologia".

Nesse novo mundo, disse ele, "você pode ser um agente livre. Você pode começar a sua própria Igreja, ir a uma pequena comunidade de fé do outro lado da rua, ir a uma mega-Igreja. Você pode ser metodista hoje, anglicano amanhã - a escolha é sua".

Isso pode parecer heresia para alguns, para quem a doutrina é imutável. Mas se encaixa perfeitamente no espírito da conferência, onde nada, a não ser o troféu do campeonato de "corn toss", foi feito com alguma coisa sólida.

Clayton, o organizador, disse que o que estava acontecendo na conferência e em movimentos cristãos emergentes lembrava-lhe o Free Speech Movement da década de 60. "É algo cru, de improviso, mas não é apologético, sabe o seu propósito e ele é poderoso", afirmou.

A conferência começou com um anúncio incomum do co-moderador Tony Jones, um teólogo residente da Igreja de Pagitt, em Minneapolis, e autor de "The New Christians: Dispatches From the Emergent Frontier" [Os novos cristãos: mensagens da fronteira emergente].

"Não queremos que vocês coloquem os seus celulares no silencioso", disse ele ao público. "Queremos que vocês estejam conectados a tudo o que está acontecendo no mundo".

Pelo menos metade do público trabalhou multiplamente em laptops, iPhones e BlackBerrys enquanto ouvia os oradores. E muitos postavam comentários no Twitter, que eram constantemente atualizados em um telão atrás do palco. Além dos participantes em Claremont, os organizadores disseram que cerca de 1.300 pessoas assistiram a transmissão ao vivo da conferência pela Internet em todo o mundo.

Há, claro, inconvenientes para toda revolução. Quando Jones pediu que o público gritasse ou tuitasse quaisquer objeções que tivessem com relação ao uso de redes sociais como o Facebook, alguém gritou: "Eu não me importo com aquilo que você comeu no café-da-manhã". E Roger Burns-Watson, que está começando uma igreja nos arredores de Columbus, Ohio, se perguntava se haveria espaço para Deus em um mundo de interação online 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Conseguirá uma pequena e calma voz romper o ruído digital? "Deus pode não lhe enviar uma mensagem de texto hoje", disse Burns-Watson aos participantes. "E você será paciente com um Deus que não se movimenta em uma velocidade digital?".

Fonte: IHU-OnLine

em: http://www.revistamissoes.org.br/artigos/ler/id/835

Inauguração da sala “José Allamano” na EDT (Escola Dominicana de Teologia)

No passado dia 26 de fevereiro, a direção da EDT (Escola Dominicana de Teologia), localizada em São Paulo, quis homenagear os missionários da Consolata (IMC) e os Missionários Oblatos de Maria Imaculada (OMI), com a inauguração da sala “José Allamano” e da sala “Eugênio de Mazenod”, fundadores das respectivas congregações, pela grande colaboração que seus filhos estão dando na reestruturação e desenvolvimento da faculdade de teologia.

“A Escola Dominicana de Teologia (EDT) foi fundada em São Paulo, em 1943, no bairro das Perdizes. Funcionou até 1970, quando foi fechada por várias circunstâncias, especialmente por causa da repressão militar que prendeu vários dominicanos. A EDT reiniciou suas atividades em 1993, tanto para a formação dos frades dominicanos, mas também a leigos e leigas, religiosos e religiosas de diversas ordens e congregações. O reconhecimento pela Santa Sé se deu em 3 de fevereiro de 2000, por meio do decreto n.º 1602/99 da Congregação para a Educação Católica, tornando a EDT afiliada à Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino (Angelicum) de Roma. Em Fevereiro de 2008 a EDT obteve credenciamento do Ministério da Educação - MEC (DOU, 13/ 02/ 2008) e, Em 29/ 02/ 2008, foi publicada a Portaria 144, de 28/ 02/ 08, autorizando o funcionamento do Curso de Bacharelado em Teologia” (www.edt.edu.br).

O Pe. Luiz Emer, representando o IMC, disse ser um belo sinal termos uma sala de estudo da faculdade “batizada” com o nome do Bv. José Allamano neste ano em que além de celebrarmos o Centenário das Missionárias da Consolata, temos o fundador como protetor especial do Instituto neste ano. Além disso, recordou a grande importância que o Bv José Allamano dava à aquisição da ciência e do saber, afirmando que um missionário ou missionária sem ciência e estudo é como uma lâmpada apagada.

Queremos pedir que o Bv. José Allamano continue iluminando os seus filhos e filhas para que possam se preparar para “anunciar a glória de Deus às nações”.

Escrito por Júlio Caldeira, imc

Lectio Divina: Lição de Misericórdia - 5º Domingo da Quaresma - Jo 8,1-11

Por: Patrick Silva, imc - in: http://www.imconsolata.org.br/

Jesus foi para o Monte das Oliveiras. De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo se reuniu ao redor dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Os escribas e os fariseus trouxeram uma mulher apanhada em adultério. Colocando-a no meio, disseram a Jesus:
“Mestre, esta mulher foi flagrada cometendo adultério. Moisés, na Lei, nos mandou apedrejar tais mulheres. E tu, que dizes?” Eles perguntavam isso para experimentá-lo e ter motivo para acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever no chão, com o dedo.
Como insistissem em perguntar, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra!” Inclinando-se de novo, continuou a escrever no chão. Ouvindo isso, foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos. Jesus ficou sozinho com a mulher que estava no meio, em pé. Ele levantou-se e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor!” Jesus, então, lhe disse: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. (João 8,1-11)

1. LECTIO – leitura
Esta semana voltamos a ler mais um exemplo do perdão e da misericórdia de Jesus. Uma mulher é apanhada em adultério é apresentada a Jesus. Somente a mulher é apresentada, estaria só! Os fariseus, conhecendo o sentimento de compaixão que Jesus nutria pelos pecadores, aproveitam a oportunidade para tentar prendê-lo. É fácil de imaginar a cena: Jesus está ensinando no templo, o lugar mais sagrado para os judeus que Jesus descreveu como "casa de meu Pai". Uma multidão de pessoas reunidas ao seu redor para escutá-lo. Um grupo de fariseus e doutores da Lei chega com uma mulher e a colocam perante Jesus. Eles afirmam que ela foi apanhada em adultério e que a punição exigida pela Lei de Moisés é a morte por apedrejamento (veja Levítico 20,10 e Deuteronômio 22, 22-24). Então vem a pergunta nada inocente: "E tu, que dizes?" Eles pretendem acusar a mulher, mas, seu principal objetivo é encontrar uma oportunidade para acusar Jesus. O homem com quem ela estava cometendo adultério não é mencionado! A atmosfera deve ter sido eletrizante. Era literalmente uma questão de vida ou morte. Olhos de todos passam da mulher, que está em “perigo de vida”, para se fixarem em Jesus. Qual será a sua resposta? Então Jesus se abaixa e começa a escrever no chão. O que é que ele terá escrito? Por quê reagiu daquele modo? Talvez Jesus desejasse desviar a atenção da pobre mulher, a qual deveria estar apavorada. Talvez ele estivesse pensando que resposta iria dar. O evangelista João não oferece nenhuma explicação.
Finalmente chega a resposta de Jesus. É uma resposta magistral. Ele está bem ciente da armadilha. Ele silencia os acusadores sem contrariar a lei e sem branquear o pecado ou desculpabilizar o comportamento da mulher. Convidando os acusadores a tomarem consciência de que o pecado é uma conseqüência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso. A mulher fica só diante de Jesus. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo, de liberdade e de paz (“vai e não tornes a pecar”). A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida; a proposta que Deus faz através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza; e destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de uma qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena da pessoa.
O episódio sublinha a intransigência e a hipocrisia da humanidade, sempre disposta a julgar e a condenar... os outros. Jesus denuncia a lógica daqueles que se sentem perfeitos e auto-suficientes, sem reconhecerem que estamos todos a caminho e que, enquanto caminhamos, somos imperfeitos e limitados. É necessário reconhecer, com humildade e simplicidade, que necessitamos todos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena. A única atitude que faz sentido, neste esquema, é assumir para com os todos a tolerância e a misericórdia que Deus tem para com todos nós.

2. MEDITATIO – meditação
+ Compare a forma como os fariseus trataram esta mulher e a maneira de Jesus tratar. Quais as diferenças?
+ Imagine-se em primeiro lugar como um dos fariseus, em seguida, como esta mulher assustada. Que impacto você acha que esse encontro teria sobre você?
+ O que podemos aprender com esta passagem sobre as nossas atitudes para o nosso próprio comportamento e nossas atitudes para com os outros?

3. ORATIO – oração
Agradeça a Deus por sua graça e misericórdia. Ele conhece nossas fraquezas e limites, porém, está sempre disposto a perdoar.
Ore com o Salmo 126 e dê graças pelas maravilhas que o Senhor tem feito por nós!
Peça ao Espírito Santo para revelar as atitudes em você que devem ser mudadas.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Considere as imagens da água presentes em Isaías 43 e Salmo 126. Deixe Deus revelar-se como fonte purificadora da vida. Contemple as maravilhas que Deus tem realizado por si, mesmo que às vezes se sinta não merecedor.

5. MISSIO - missão
Num mundo sempre pronto a apontar o dedo acusador contra os mais fragilizados, a/o missionária/o é convidado a demonstrar toda a sua compaixão em favor dos “rejeitados”, na certeza da misericórdia de Deus. “Nós devemos ser humildes por necessidade de nossa frágil natureza”. José Allamano


sexta-feira, 12 de março de 2010

Lectio Divina: Perdidos e Achados - 4º Domingo da Quaresma - Lucas 15,1-3;11-32

Por: Patrick Silva, imc

Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam contra ele. “Este homem acolhe os pecadores e come com eles”. Então ele contou-lhes esta parábola... E Jesus continuou. “Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha esbanjado tudo o que possuía, chegou uma grande fome àquela região, e ele começou a passar necessidade. Então, foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu sítio cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. Colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos. Pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. Ele respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque recuperou seu filho são e salvo’. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistiu com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Mas quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo’. Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”. (Lucas 15,1-3;11-32)

1. LECTIO – leitura
Esta parábola é um dos melhores exemplos conhecidos de amor e misericórdia de Deus, mostrando que o amor de Jesus pelos pecadores está enraizado no amor do Deus Pai. O ponto de partida é a murmuração dos fariseus e dos escribas que, diante da avalanche de publicanos e pecadores que escutam Jesus, comentam o fato de Jesus conviver com os publicanos e pecadores. A parábola narra rapidamente a história de vida do filho mais novo pelo desperdício da herança, a humilhação, o arrependimento e decisão de risco de voltar para casa. O pai congratula-se com a volta de seu filho e o recebe de braços abertos, para comemorar faz também uma grande festa. O clima de festa não é partilhado pelo irmão mais velho, que se ressente do perdão generoso de seu pai.
A parábola apresenta-nos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. A personagem central é o pai. Trata-se de uma figura excepcional, que conjuga o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. A conseqüência do amor do pai simboliza-se no “anel” que é símbolo da autoridade (veja Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, que é o calçado da pessoa livre.
O filho mais novo é um filho ingrato e obstinado, que exige do pai mais do que aquilo a que tem direito (a lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai – veja Dt 21,15-17; mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não acediam à sua posse senão depois da morte deste – veja Sir 33,20-24). É uma imagem de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de total irresponsabilidade. Acaba, no entanto, por entender o vazio, o sem sentido, o desespero dessa vida de egoísmo e de auto-suficiência e por ter a coragem de voltar ao encontro do amor do pai.
Finalmente, o filho mais velho. É o filho “certinho”, que sempre fez o que o pai mandou, que cumpriu todas as regras. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica da “misericórdia”. É a imagem desses fariseus e escribas que interpelaram Jesus: porque cumpriam à risca as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus.
Podemos concluir que o Evangelho apresenta-nos o Deus/Pai que ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde. Esse amor paciente, esta sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar a/o filha/o que decide voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia e não na linha da justiça da humanidade.

2. MEDITATIO – meditação
+ Faça uma lista dos diferentes desafios para os dois filhos.
+ Com qual filho você mais se identifica? O que esta passagem tem a dizer para você?
+ O que podemos aprender com as ações do pai?

3. ORATIO – oração
Em oração, leia 2 Coríntios 5:17-21. Peça ao Espírito Santo que o ensine o que deve pedir em sua oração.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple o grande amor misericordioso e paciente deste Deus/Pai. Experimente essa misericórdia de Deus na sua vida.

5. MISSIO - missão
A/o missionária/o é chamada/o a levar esta imensa misericórdia a toda a humanidade, ninguém está excluído deste projeto de amor do Deus/Pai. “Vamos, coragem! Um pouco de amor arruma tudo. Não desanimemos jamais, recomecemos sempre: Nunc coepi! (agora começo). José Allamano

OBS: disponível todas as quartas-feiras no site: www.imconsolata.org.br

quarta-feira, 3 de março de 2010

Lectio Divina: Arrepender-se para Acreditar - 3º Domingo da Quaresma - Lc 13,1-9

por Pe. Patrick Silva, imc, em www.imconsolata.org.br

Nesse momento, chegaram algumas pessoas trazendo a Jesus notícias a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando o sangue deles com o dos sacrifícios que ofereciam. Ele lhes respondeu: “Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que qualquer outro galileu, por terem sofrido tal coisa? Digo-vos que não. Mas se vós não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que qualquer outro morador de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”. E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi lá procurar figos e não encontrou. Então disse ao agricultor: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Para que está ocupando inutilmente a terra?’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano. Vou cavar em volta e pôr adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então a cortarás”. Lucas 13,1-9

1. LECTIO – leitura
Neste evangelho, Jesus usa dois eventos da sua atualidade para ensinar lições importantes. Os dois eventos são bastante diferentes um do outro; um da esfera política, o outro, um desastre. Ambos os casos, muitas pessoas morreram. No primeiro evento, Pilatos tinha assassinado alguns galileus enquanto estes estavam oferecendo os seus sacrifícios a Deus. Suas vidas foram subitamente dizimadas ao mesmo tempo em que realizavam seus atos religiosos, ainda por cima, num lugar sagrado como era o templo. Nós não sabemos o motivo que levou Pilatos a tal atitude. No entanto, as pessoas pensaram que esses galileus deveriam ter realizado algo de muito ruim para serem mortos daquela forma. Muitos especulavam que Deus não tinha “gostado” dos seus sacrifícios e assim permitiu que este sacrilégio acontecesse. Então Jesus considera um segundo evento, desta vez um desastre, quando uma torre desabou matando dezoito pessoas.
Jesus deixa claro que em ambos os casos as pessoas que morreram não eram piores do que os seus ouvintes ou qualquer outra pessoa. Ele insiste na necessidade do arrependimento dos pecados, da mudança de vida, caso contrário, serão julgados e punidos por Deus.
Jesus desenvolve seu ensino, contando uma parábola sobre uma figueira que não dá frutos. A árvore não produziu qualquer figo por três anos e está em perigo de ser derrubada. O jardineiro pede mais um ano para que ele possa dar uma atenção especial aquela figueira, para a ajudar a produzir frutos. Mas se a árvore continuar estéril após todo o cuidado, então será removida. O Antigo Testamento tinha utilizado a imagem da figueira como símbolo de Israel (veja Oseias 9,10), até mesmo como símbolo da falta de resposta à aliança (veja Jeremias 8,13). Deus espera que Israel (a figueira) dê frutos, isto é, aceite converter-se à proposta de salvação que lhe é feita em Jesus; dá-lhe, até, algum tempo (oportunidade), para que essa transformação aconteça. Deus revela, assim, a sua bondade e a sua paciência; no entanto, não está disposto a esperar indefinidamente. Apesar do tom ameaçador, é de notar uma nota de esperança: Jesus confia em que a resposta final de Israel à sua missão seja positiva.
Jesus adverte os seus ouvintes a não serem como a figueira, estéreis. Quem acolhe Jesus e o seu ensinamento deve produzir frutos dessa mudança de vida. A conclusão é a necessidade do arrependimento e do voltar para Deus. Convite lançado desde o primeiro dia da Quaresma, quando o profeta Joel afirmava: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração” (Joel 12,2).
O Evangelho contém um convite a uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um “re-centrar” a vida de forma que Deus e os seus valores passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus, a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.

2. MEDITATIO – meditação
+ O que esta passagem tem a dizer sobre a nossa “mania” de pensar que somos melhores do que outros?
+ Você vê alguma relação entre Jesus e o jardineiro que implorou para que a possibilidade de cuidar da figueira e salvá-la de ser cortada?
+ O que você acha que os figos podem representar nesta parábola?
+ Considere o que a parábola afirma sobre o caráter de Deus - a sua paciência, misericórdia e santidade. Já experimentou isso em sua vida?

3. ORATIO – oração
Use o Salmo 103 para um momento de comunhão e oração com Deus. Lembre-se de seu amor, misericórdia e bondade. Agradeça a Deus pela oferta constante do perdão dos nossos pecados. Pergunte a Deus como sua vida poderia ser mais proveitosa.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
A morte de Jesus na cruz abriu uma porta na presença de Deus (Hebreus 4:14-16). Agora podemos chegar diante do trono de Deus a qualquer momento. Sente-se ou ajoelhe-se na presença de Deus e contemple a santidade deste Deus misericordioso.

5. MISSIO - missão
Enviados por Jesus pelo mundo, a/os missionária/os são instrumentos nas mãos de Deus para dar a conhecer à humanidade este amor misericordioso e paciente deste Deus, que convida a todos a esta mudança de vida, no entanto, a primeira mudança deve acontecer na/o missionária/o. “No tempo da quaresma, que é o tempo oportuno, devemos corresponder, devemos animar-nos, e não engrossar a fila dos que vão para a frente assim, assim...


Retiro de Quaresma para Jovens - 2010

A cada ano somos convidados a entrar na caminhada quaresmal, que nos recorda os 40 dias de Jesus no deserto suportando a prova que o diabo lhe preparou. Durante esse tempo Jesus mostrou as suas opções, as suas escolhas fundamentais.
No final da prova o diabo o deixou, mas apenas até ao momento oportuno. Para bem enfrentar as tentações e fazer as boas opções ao estilo de Jesus nada melhor que reforçar as forças espirituais para o "embate". O retiro quaresmal foi essa oportunidade para os participantes deste momento de oração e partilha. Éramos 20 jovens que se encontraram no Castelinho (Centro Missionário José Allamano - SP) para durante um fim de semana experimentar este tempo de deserto e montanha. Um convite a deixar o que está a mais em nossa vida e ir até ao deserto. Assim partilhamos o que entendemos por quaresma, o que nos é pedido na quaresma. Experimentamos a presença de Deus nos vários momentos de oração, na exposição do Santíssimo, na Via Sacra, na Celebração Penitencial. O clima foi de oração, partilha e família. Foi bom ver um bom grupo de jovens comprometido com a sua fé. A conclusão do retiro foi com a celebração Eucarística, onde mostramos toda a nossa criatividade e vontade de viver e celebrar bem a nossa fé. Foi um bom retiro, com gente boa e cheia de vontade de depois de ter subido à montanha, agora foi para a planície anunciar quem tem um Deus que vale a pena acreditar. Até breve...
Veja as FOTOS deste evento:
Veja também o VIDEO

publicado em: http://www.imconsolata.org.br/

terça-feira, 2 de março de 2010

O combustível da solidariedade




de Domingos Zamagna (*)


O ano de 2010 marca o centenário da formação em medicina do Dr. Albert Schweitzer (1875-1965), Prêmio Nobel da Paz em 1952.

A figura luminosa desse grande homem, sobretudo quando estamos sob o efeito dos relatos e das imagens impactantes de Angra dos Reis, Baixada fluminense, São Luiz do Paraitinga, enchentes em São Paulo e noutras cidades e, mais que tudo, da catástrofe do Haiti, nos faz pensar na importância de uma cultura da solidariedade. Alguns estudiosos escolheram o vocábulo “solidariedade” como o mais adequado para se traduzir o que o Novo Testamento chama de “agápe”.

Gostaria de começar citando dois exemplos que acompanhei de perto.

Tive uma aluna que faz parte da Ong Médicos sem Fronteiras. Há vários anos ela foi designada para dar assistência a terremotados do Irã. Ela sugeriu que um dos poucos prédios que não foram destruídos na região em que atuava – a mesquita – fosse transformada em enfermaria de emergência. Por ser uma mulher estrangeira (francesa) sugerindo um absurdo desses, execrada pelos clérigos, foi obrigada a se afastar da área, processada, e só não foi condenada porque o governo da França lhe deu proteção eficaz, abrigando-a num navio de guerra no Golfo pérsico, possibilitando seu retorno a São Paulo. Por duas vezes ela precisou interromper o curso no Brasil e comparecer diante de juízes em Teerã para responder por seu “crime”. Certamente também no Irã há muitas pessoas tolerantes, mas sabemos que elas vivem quase escondidas sob o regime dos aiatolás. A intolerância de parte da clericatura islâmica predomina sobre toda a nação.

Em 2004, por ocasião do tsunami na Ásia, a Ong mandou a mesma médica para o leste do Sri Lanka, trabalhando numa região bem pobre que, além de atingida pelas gigantescas ondas do maremoto, era também conflituosa do ponto de vista político. Tardando o apoio logístico do governo cingalês, os guerrilheiros separatistas Tigres Tâmeis lhe obtiveram instrumentos para realizar cirurgias e acesso à internet. Enviou relatos pungentes que alguns jornais publicaram durante semanas. Os monges budistas foram espontaneamente os primeiros a oferecer seus pagodes para serem transformados em enfermarias. Suas túnicas, devidamente esterilizadas na fervura a lenha, serviram de campos cirúrgicos, possibilitando a salvação de muita gente. Sem maniqueísmos, outra cultura claramente produz outras práticas.

Na semana passada, chego em casa de noite e encontro um envelope vindo de Gana. Correspondência de outra ex-aluna, religiosa, missionária na costa atlântica da África. Onde ela foi trabalhar? Numa cidadezinha em que o Dr. Schweitzer construiu um hospital. Durante a graduação, falei várias vezes para os alunos da notável figura deste humanista que sempre me impressionou. Médico, cientista famoso; músico, exímio organeiro e organista, um dos maiores intérpretes de Bach; escritor, refinado filósofo; pastor luterano, competente teólogo e exegeta; educador, foi o inventor de uma linguagem adequada para se dirigir aos africanos das colônias francesas que se debatiam na dura vida das selvas. Este eminente alsaciano (a Alsácia de então pertencia ao Império alemão) deixou o conforto da Universidade de Strasbourg para trabalhar com os hansenianos na África.

Nem sempre a bondade é recompensada. Com o início da I Grande Guerra a família Schweitzer foi levada para a França como prisioneiros, passando anos confinados em campos de concentração. Nessa época Schweitzer escreve sobre a decadência das civilizações. De fato, até hoje não se descobriu uma vacina contra a decadência. Mas talvez o solidarismo seja o antídoto mais eficiente contra essa moléstia que afeta todas as latitudes e longitudes do planeta. Com o fim da guerra, ante um mundo que se desmoronava, não perdeu a esperança: “Começaremos novamente. Devemos dirigir o nosso olhar para a humanidade”.

A fama não lhe subiu à cabeça, não o afastou de seus valores. O trabalho do Dr. Schweitzer com os mais excluídos dentre os doentes, num modesto hospital na cidadezinha de Lambarené lhe valeu, com justeza, o Prêmio Nobel da Paz.

Todos nós sabemos que a destruição de Porto Príncipe é mesmo dolorosa. Mas ao mesmo tempo as nações, contagiando-se umas às outras pelo solidarismo, redescobrem que sob nosso olhar existe um povo empobrecido pelo colonialismo, pela violência política de uma dinastia familiar, pelo esquecimento histórico.

Esperemos que os fatos, por mais tristes que sejam, nos ensinem a sabedoria de nos afastar tanto do individualismo quanto do coletivismo, para que o Haiti e outras populações vítimas das catástrofes naturais e sociais possam se construir sobre a rocha sólida do trabalho disciplinado, da prevenção eficaz, da preparação de um futuro de prosperidade, da conscientização pela educação, mas também pelo mais robusto liame que pode unir os seres humanos, a solidariedade.
(*) Jornalista e professor de Filosofia e Teologia.

escrito em: http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?id=38391&canal=14