Missionário da Consolata na Colômbia e no Equador...

terça-feira, 22 de março de 2011

Situação difícil da Igreja no Vicariato de San Miguel de Sucumbíos - Equador

POR: Júlio Caldeira, imc, missionário em Sucumbíos (Equador)

Este artigo tem a finalidade de informar aos cristãos católicos de língua portuguesa da situação que vive a Igreja do Vicariato de Sucumbíos - Equador.

No dia 28 de outubro de 2010 o Vaticano aceitou a renúncia de Dom Gonzalo López, por idade, que esteve 40 anos à frente do Vicariato e nomeou como Administrador Apostólico do Vicariato, no dia 30 de outubro, o Pe. Rafael Ibarguren Schindler, EP (da Sociedade de Vida Apostólica "Virgo Flos Carmeli" - Arautos do Evangelho, que no Equador também são conhecidos como “Cavalheiros da Virgem”)

1. Protocolo nº 4417/10 da Congregação para a Evangelização dos Povos

Causou muito mal-estar em muitas lideranças a mensagem do Cardeal Días (prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos), datado de 15/11/2010, que questiona algumas atitudes pastorais contrárias à “exigência pastoral da Igreja como tal”, feita por Dom Filipo Santoro, bispo de Petrópolis/RJ (que foi o Visitador Apostólico nomeado pelo Vaticano – sendo que seu relatório nunca foi conhecido).

E continua afirmando que “por tal motivo, o novo Administrador Apostólico terá que organizar o Vicariato e implantar de maneira diferente todo o trabalho pastoral”. E conclui dizendo (o que causou indignação) que “para não impedir neste delicado serviço sua organização, a Congregação considera oportuno que depois da nomeação do novo Administrador Apostólico, Vossa Excelência (Dom Gonzalo) deixe o Vicariato Apostólico transladando-se a um lugar diferente, se possível, a seu País de origem (Espanha)”.

2. Assembleias Diocesanas de Pastoral e divisão entre os católicos

A única reunião entre Pe. Rafael e os Arautos com representantes do Vicariato foi no dia 20 de novembro de 2010 (durante a Assembleia Diocesana Extraordinária – que em ISAMIS é realizada mensalmente).

Dois fatos aumentaram a crise:

a) Os Arautos realizaram uma “Assembléia Extraordinária do ISAMIS” no dia 26 de novembro de 2010 com a presença exclusiva deles, onde “elegeram” um Conselho Jurídico e Econômico formado por Arautos, que foi invalidado pelo Ministério de Justiça, Direitos Humanos e Culto do Governo Equatoriano, em 29/12/2010.

b) No dia 07 de janeiro de 2011 realizou-se a Assembléia Diocesana Extraordinária, instância legitimamente constituída, que não contou com a presença do Pe. Rafael nem dos Arautos (que enviaram a polícia e não justificaram sua ausência). Nesta, as autoridades eclesiais, entre outras coisas, pedem a saída dos Arautos do Vicariato.

Após estes fatos, e vários outros que foram discorrendo com a chegada de uma comitiva dos Arautos do Evangelho, que segundo Pe. Rafael Ibarguren “foi encarregado à comunidade dos Arautos do Evangelho, jovem congregação que conta com vocações e crescimento, o cuidado do Vicariato”, começou-se uma série de acusações, que levou as comunidades cristãs católicas à divisão: por um lado estão os pró-Arautos e, por outro, os contra-Arautos…

Também começaram muitas acusações de atitudes dos Arautos, como ir às comunidades sem comunicar aos responsáveis, demitir funcionários/as “revolucionários/as”, desrespeitar pessoas que trabalham há anos nas pastorais, etc… E, por parte dos Arautos, que os Carmelitas e Dom Gonzalo não levavam com transparências a administração econômica do Vicariato nestes 40 anos, que a Igreja deve se preocupar com “as almas”, deixando o social para o Estado, etc…

3. Aumento das tensões

A divisão aumenta cada vez mais e encontra-se dificuldades de diálogo entre as partes. A Conferência Episcopal Equatoriana (CEE) já enviou uma delegação que contou com três bispos, que não conseguiram colocar as partes em diálogo.

Diante destes fatos, o Ministério de Relações Exteriores, Comércio e Integração, no dia 4 de fevereiro de 2010, em carta dirigida ao Núncio Apostólico Dom Giacomo Guido Ottenelli, reconheceu a Assembléia Diocesana de 7 de janeiro e pediu a investigação das atividades dos Arautos no Vicariato e a nomeação de um bispo que continu o trabalho de Dom Gonzalo.

O grupo que defende a saída dos Arautos (apoiada pelo clero diocesano, por muitos religiosos/as, lideranças comunitárias e sociais presentes no Vicariato), realiza desde 7 de janeiro uma vigília diária na praça em frente à catedral e realizou uma Marcha no dia 11 de março.

A sociedade civil e o Governo (em pronunciamento dos prefeitos da Província e do próprio Presidente da República) pediram a saída dos Arautos do Evangelho de Sucumbíos.

No passado dia 18 de março, o Núncio anunciou que o Vaticano enviará um Legado Papal para buscar solucionar o caso.

DUAS MANIFESTAÇÕES EM LAGO AGRIO: por fim, no dia 20 de março passado, aconteceram, simultaneamente, duas manifestações:
a) A "Marcha Branca pela Paz", organizada pelo Comitê pela unidade e paz entre os cristãos católicos (pró-Arautos), formada basicamente por um público urbano (e da Renovação Carismática) com uma caravana de carros e motos levando "bandeiras brancas".
b) A "Concentração" organizada pelo Comitê pela dignidade de ISAMIS e pela defesa da Rádio Sucumbíos (contra-Arautos), com a ampla participação da população urbana, de campesinos e indígenas (em suas mais diversas organizações).

Conclusão

Esperamos que este conflito se resolva, o mais rapidamente possível, e que a fraternidade volte a imperar entre os católicos de Sucumbíos, bem como se mantenha a vitalidade desta Igreja-Comunidade "Povo de Deus", pois é triste ver esta divisão...

Unamo-nos em oração por esta Igreja de San Miguel de Sucumbíos (ISAMIS) e que o Espírito de Deus ilumine as partes para que se chegue à unidade, “para que todos sejam um, como Tu, Pai, está em Mim e Eu em Ti. E para que também eles estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu me enviaste” (Jo 17,21).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 6,24-34 - 8º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc
Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro! “Por isso, eu vos digo: não vivais preocupados com o que comer ou beber, quanto à vossa vida; nem com o que vestir, quanto ao vosso corpo. Afinal, a vida não é mais que o alimento, e o corpo, mais que a roupa? Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros. No entanto, o vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles? Quem de vós pode, com sua preocupação, acrescentar um só dia à duração de sua vida? E por que ficar tão preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo. Não trabalham, nem fiam. No entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está aí e amanhã é lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós, gente fraca de fé? Portanto, não vivais preocupados, dizendo: ‘Que vamos comer? Que vamos beber? Como nos vamos vestir?’ Os pagãos é que vivem procurando todas essas coisas. Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! A cada dia basta o seu mal. (Mt 6, 24-34)
1. LECTIO – Leitura
Continuamos na “montanha” onde Jesus pronunciou seu discurso, discurso esse que nos tem acompanhado ao longo das últimas semanas. Desta vez o texto proposto começa com um “dito” de Jesus  que adverte os discípulos para o uso das riquezas. Jesus afirma a incompatibilidade entre o amor a Deus e o amor aos bens materiais (a palavra grega usada é “mamonas”, que aqui serve para personificar o dinheiro como um poder dominador).  Deus deve ser o centro à volta do qual a pessoa constrói a sua existência. Assim, sempre que a lógica do “ter” domina o coração, o dinheiro ocupa o lugar de Deus e passa a ser um “deus”.  O verdadeiro Deus passa, então, a ocupar um lugar secundário, enquanto que o dinheiro não deixa espaço para qualquer outro valor. Ainda mais que o amor do dinheiro fecha totalmente o coração da pessoa num egoísmo estéril e não deixa qualquer espaço para o amor aos outros.
O evangelista Mateus procura responder às seguintes questões: como deve ser ordenada a hierarquia de valores dos discípulos de Jesus? Os membros da comunidade cristã não se devem preocupar minimamente com as suas necessidades básicas?
Para os discípulos de Jesus, o “Reino” deve ser o valor mais importante, a prioridade da sua vida. Então não é necessário preocupar-se com a comida, a bebida, a roupa, a segurança? Claro que precisamos pensar nessas coisas, porém, são valores secundários, que não devem sobrepor-se ao “Reino”. De resto, não precisamos de viver obcecados com essas coisas, pois o próprio Deus Se encarregará de suprir as necessidades materiais dos seus (“tudo o mais vos será dado por acréscimo” – ver. 33). Aliás, quem aceita o desafio do “Reino” descobre rapidamente que Deus é esse Pai bondoso que preside à história humana, que cuida dos seus. O discípulo que escolheu o “Reino” passa, então, a viver nessa serena tranquilidade que resulta da confiança absoluta no Deus que não falha.
A proposta de Jesus será um convite a viver na alegre despreocupação, na inconsciência, na passividade, no comodismo? Não. As palavras de Jesus são um convite a pôr em primeiro lugar as coisas verdadeiramente importantes (o “Reino”), a relativizar as coisas secundárias (as preocupações exclusivamente materiais) e, acima de tudo, a confiar totalmente na bondade e na solicitude paternal de Deus. De resto, viver na dinâmica do “Reino” não é cruzar os braços à espera que Deus faça chover do céu aquilo de que necessitamos; mas é viver comprometido, trabalhando todos os dias, a fim de que o O Reino de Deus se torne realidade.

2. MEDITATIO – meditação
  • Quais são as prioridades da sua vida? No que é que aposta incondicionalmente a sua vida?
  • O evangelho afirma a incompatibilidade entre o dinheiro e Deus. Se tiver que optar (não em termos teóricos, mas nas situações concretas da vida) entre o dinheiro e os valores do “Reino”, qual a sua escolha?
  • As preocupações do dia a dia o impedem de viver plenamente? O que poderia fazer para resolver tal situação?
3. ORATIO – oração
Num mundo em que o dinheiro se tornou o “único deus”, o discípulo é chamado a colocar a sua confiança e esperança no Deus que tudo “oferece” aos seus. Ore para se libertar de tudo o que impede de depositar tamanha confiança em Deus.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple a beleza de se sentir livre de tudo. Abandone-se as mãos deste Deus generoso e previdente.

5. MISSIO – missão
“Nunca corri atrás do dinheiro e o dinheiro correu sempre atrás de mim.” José Allamano



Lectio Divina de Mateus 5,38-48 - 7º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc
“Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’.Ora, eu vos digo: não ofereçais resistência ao malvado! Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! Se alguém te forçar a acompanhá-lo por um quilômetro, caminha dois com ele! Dá a quem te pedir, e não vires as costas a quem te pede emprestado. “Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito. (Mt 5, 38-48)
1. LECTIO – Leitura
O “discurso da montanha” continua nos guiando em nossa reflexão. Da última vez nos foi recordado que Jesus não veio para abolir a lei de Moisés, mas para lhe dar pleno cumprimento. No entanto, a perspectiva que o discípulo deve ter perante a lei, deve ser bem diferente daquela que as autoridades religiosas tinham. O evangelista, Mateus, começou apresentando quatro exemplos concretos de como a perspectiva perante a lei deve ser diferente. Neste evangelho, mais dois exemples serão apresentados.
O primeiro exemplo (o quinto da lista) refere-se à conhecida “lei de talião” (vs 38-42). A “lei de talião”, conhecida pela fórmula “olho por olho, dente por dente”, aparece em vários textos (veja Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Apesar de hoje parecer uma lei descabida, era uma lei “aceitável”, pois evitava vinganças excessivas… No entanto, para Jesus uma nova lógica é necessária. O discípulo de Jesus deve terminar com tudo o que gera violência.  Jesus propõe que os membros do “Reino” sejam capazes de interromper o curso da violência, assumindo uma atitude pacífica. A título de clarificação, quatro casos concretos são apresentados. No primeiro (v. 39), pede que não se responda com a mesma moeda ao agressor, mas que se desarme o violento oferecendo a outra face; no segundo (v. 40), recomenda que, diante de uma exigência descabida (entregar da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental), se responda entregando ainda mais (a capa – roupa que servia para proteger do frio da noite e que a Lei não admitia que fosse retida, senão por um dia (veja Ex 22,25; Dt 24,12-13); no terceiro (v. 41), exige que se acompanhe por duas milhas aquele que quer forçar a ser acompanhado por uma (alguns estudiosos acreditam que este exemplo será tirado de prática frequente das tropas romanas que requisitavam os habitantes do local que os guiassem durante algum tempo); no quarto (v. 42), Jesus recomenda que não se ignore, nem se deixe sem atender aquele que pede dinheiro emprestado… Este conjunto de exemplos concretos aponta numa única direção: os membros da comunidade de Jesus devem manifestar a todos um amor sem medida, que vai muito além daquilo que é humanamente exigido. Dessa forma, eles inauguram uma nova era de relações entre os homens.
O segundo exemplo (o sexto da lista) refere-se ao amor aos inimigos (vs. 43-48). A Lei recomendava: “ama o teu próximo e odeia o teu inimigo”… No entanto, embora haja na Lei uma referência ao amor ao próximo (veja Lv 19,18), não se refere, em lado nenhum, o ódio aos inimigos (o verbo “odiar” pode significar, nas línguas semitas, simplesmente “não amar”; no entanto, certos grupos contemporâneos de Jesus defendiam o ódio aos inimigos: os essênios de Qûmran, por exemplo, pregava o ódio contra os “filhos das trevas”).
Em qualquer caso, o amor ao próximo no tempo de Jesus tinha  adquirido um sentido muito restrito: era o amor aos mais chegados. Ainda que alguns admitissem que todo o judeu era próximo, certamente o “não judeu” estava descartado de ser próximo. Para Jesus o amor deve atingir todos, sem exceção, inclusive os inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; são abatidas todas as barreiras. A motivação é que Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, que oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (v. 45).
A expressão final (“sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”) resume o ensinamento destes seis exemplos: viver na dinâmica do “Reino” exige a superação de uma perspectiva legalista, para adotar a perspectiva abrangente de Jesus.

2. MEDITATIO – meditação
  • O evangelhos nos apresenta mais duas “exigências” de Jesus, concorda com essas exigências?
  • Seria capaz de caminhar um “quilômetro” a mais por alguém que não conhece?
  • Jesus deixa a difícil missão de amar os inimigos. Acha isso possível e realizável na sua vida?
3. ORATIO – oração
As propostas de Jesus são exigentes e às vezes até parecem ser impossíveis de realizar. Ore a Jesus que lhe dê a coragem de viver estas exigências na sua vida concreta de cada dia.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple o exemplo de Jesus na cruz, que perante o sofrimento, acaba perdoando os causadores da sua dor.

5. MISSIO – missão
“Somos chamados a amar a Deus e a fazer o bem: todo o bem possível e o melhor que for possível. Quanto mais amarmos a Deus mais perfeitos seremos; a medida da nossa perfeição é o amor.” José Allamano



Televisão e religião

Por: Domingos Zamagna (*)

Há dias, algumas das nossas maiores autoridades eclesiásticas fizeram um pronunciamento a respeito da falta de ética na televisão brasileira. Como sempre, é claro que os católicos recebemos esse pronunciamento com respeito, vendo nele um sério esforço de colaboração para a melhoria do nível de nossa televisão. Mesmo porque essas autoridades verbalizavam o que é pensamento e indignação de milhões de lares brasileiros.
A reação das emissoras não tardou, umas dizendo que não tinham nada a ver com o assunto, outra só faltou dizer que sua programação  é destinada à lua etc. Mas houve também quem dissesse que seus realities-shows são lastreados no pluralismo ideológico-cultural-religioso, que é leiga e não segue nenhum preceito de religião. Que coisa fantástica!
O refinado intelectual que redigiu o texto de defesa da emissora, que não acenou sequer com a possibilidade de alguma verdade no que dizia o pronunciamento da Igreja, certamente teria ainda muito a aprender sobre o sentido dos vocábulos “leigo” e “religião”. No Brasil, toda vez que instituições praticam atentados contra a ética, toda vez que as organizações beiram práticas criminais, costumam dizer que são leigas. Está havendo uma falaciosa ressemantização de alguns vocábulos, de tal modo que, na cabeça de muita gente, “laicidade” vai virar sinônimo de bandidagem. Porque sou “leigo”, estarei acima do bem e do mal: serei a favor do aborto, da eutanásia, da pena de morte, do mensalão, do aumento astronômico do salário de parlamentares, do aumento ridículo do salário mínimo etc. Se alguma Igreja protestar contra esse préstito de sem-vergonhice, será estigmatizada – em horário nobre – de alienada, atrasada, anacrônica.
Mais pitoresco, para não dizer trágico, foi o modo como se pretendeu usar a expressão “preceito religioso”. As religiões, por incrível que pareça, apesar do enorme peso de milenares rotinas, são capazes de evoluir, e colocar-se a serviço do povo. Quem tiver um pouco de espírito e prática de pesquisa, facilmente há de constatar que a Igreja Católica – para falar apenas do que conheço mais de perto – tem feito uma autocrítica, revisto seus procedimentos, constatado seus erros, não só pedindo desculpas por seus pecados, mas também praticando reparação por seus crimes. Se houve momentos de nossa história em que fomos um peso morto, há muito que os cristãos vêm procurando cada vez mais se modelar na Igreja dos profetas, dos apóstolos, das santas e santos mártires. Por palavras, mas sobretudo pelo testemunho de conversão e serviço, querem se identificar com a pessoa e a missão de Jesus Cristo, o Salvador.
Ora, algumas das práticas das quais as verdadeiras religiões se desvencilharam, alguns dos cacoetes e penduricalhos típicos das religiões que não souberam se renovar, estão cada vez mais sendo absorvidos por instituições que se apresentam como “leigas”. Para quem – como eu – já passou por isso, ou quem não se deixa impressionar pelas aparências, é difícil imaginar ambientes mais hierarquizados do que certas centrais de comunicação, mais dogmáticos, mais ritualísticos, mais subservientes ao deus “Mamon”, para o qual são exigidos sacrifícios verdadeiramente sangrentos, praticando milagres de manipulação, num clima de indisfarçável infalibilidade.
Digam-nos o que quiserem, mas não nos digam que não se pautam por preceitos “religiosos”. São os novos “sacerdotes”, estão desenvolvendo uma “religião” graúda, que não abre mão de nada daquilo que as religiões, a duras penas, estão aprendendo a relativizar.
Podemos tirar várias conclusões do episódio. Limito-me a uma: apesar de a Igreja ainda abrigar projetos neoconservadores, vamos tomar cuidado para que nossa religião não se deixe seduzir pelos ouropéis da imagem, não sejamos mais reprodutores de realidades das quais a história conseguiu nos libertar. Vamos concentrar o que temos de melhor para servir aos pobres, e não fazer deles um instrumento de vertiginoso enriquecimento através da sedução de feérica pirotecnia. Isso não nos conduzirá jamais à realidade (reality), mas sim ao ópio da alienação e, pelo fetiche do show, do exibicionismo, à desvalorização da vida. O que herdamos de Jesus é que lutemos pela vida, e vida em abundância. O Sermão da Montanha ensina a viver e não a representar.
Que coisa mais medonha seria olhar para uma Igreja e vê-la mimetizando os carcomidos subprodutos do universo novidadeiro da televisão; ou olhar para a televisão e vê-la representando o universo da velha e superada religião.
(*) Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Bem Aventurado José Allamano

No passado dia 16 de fevereiro, comemoramos o dia do Bv. José Allamano, fundador dos missionários e missionárias da Consolata. Para um maior conhecimento deste santo homem, segue um artigo e um vídeo...

José Allamano nasceu em 21 de Janeiro de 1851 em Castelnuovo D'Asti, ao norte da Itália. A pequena cidade dedicava-se à agricultura e ao cultivo de vinhedo que cobriam as colinas e campos. Allamano encerra sua vida em Turim aos 16 de Fevereiro de 1926 junto ao Santuário de Nossa Senhora Consolata.

O quarto de cinco filhos, perde o pai quando ainda criança, aos três anos de idade. Como estudante foi um ótimo aluno, exemplar e muito aplicado...

José Allamano passa sua vida em Turim e é ali que inicia seus estudos ginasiais no Oratório de Dom Bosco, sendo o melhor da turma. Dom Bosco, descobre no garoto, de apenas onze anos, excelentes qualidades para torná-lo um membro da Sociedade Salesiana, mas o jovem Allamano tem outro ideal: "Deus me chama agora... não sei se me chamará outra vez, dentro de três ou quatro anos!" diz aos seus irmãos - e ingressa no Seminário Diocesano de Turim. Apesar da constituição física fraca, é espiritualmente forte e dedica-se com entusiasmo ao estudo e à oração. Pede sempre ao Senhor: "Torna-me santo e não somente bom".

Em 20 de setembro de 1873 é ordenado sacerdote na Catedral de Turim, com apenas vinte e dois anos de idade. Desempenha com muita fidelidade sua função sacerdotal como Professor de Teologia, Reitor do Colégio Eclesiástico e Reitor do Santuário de Nossa Senhora Consolata em Turim, pelo período de quarenta e seis anos. Tinha projetos para o mundo. Com saúde frágil, impossibilitado de partir as Missões envia outros em nome da Consolata. Em 1900 Pe. José Allamano toma a decisão de criar um instituto missionário, que obteve aprovação em 29 de Janeiro de 1901 - o Instituto Missões Consolata.

Em 29 de Janeiro de 1910 nasce em Turim outro instituto para as Missões, o das Irmãs Missionárias da Consolata. Com a fundação das Irmãs, o trabalho missionário se estende a outros países africanos: em 1916 para Etiópia; em 1922 para a Tanzânia; em 1924 para Somália; em 1925 Moçambique; em 1946 para o Brasil e assim, sucessivamente em outros países da Europa, África, América e Ásia. Pe. Allamano dizia que seus missionários eram portadores de esperança: "Esta é realmente obra do Senhor". Os missionários e as missionárias da Consolata estão hoje presentes em 26 países do mundo.

Pe. José Allamano é uma das figuras mais marcantes da Igreja de Turim, no final do século passado e começo deste. Um sacerdote que soube doar tudo de si no serviço à Igreja e soube também abraçar o mundo com seu amor filial à Nossa Senhora Consolata

Em 07 de Outubro de 1990 suas virtudes heróicas foram reconhecidas pela Igreja Católica Apostólica Romana, que o declarou Bem-Aventurado José Allamano.




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 5,17-37 - 6º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir.Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar os outros, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.“Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal; quem disser ao seu irmão ‘imbecil’ deverá responder perante o sinédrio; quem chamar seu irmão de ‘louco’ poderá ser condenado ao fogo do inferno. Portanto, quando estiveres levando a tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda. Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto ele caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo. “Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Ora, eu vos digo: todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu coração. Se teu olho direito te leva à queda, arranca-o e joga para longe de ti! De fato, é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ser lançado ao inferno. Se a tua mão direita te leva à queda, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ir para o inferno. “Foi dito também: ‘Quem despedir sua mulher dê-lhe um atestado de divórcio’. Ora, eu vos digo: todo aquele que despedir sua mulher — fora o caso de união ilícita — faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher que foi despedida comete adultério. “Ouvistes também que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. Ora, eu vos digo: não jureis de modo algum, nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o apoio dos seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno. (Mateus 5,17-37)

1. LECTIO – Leitura

Ao longo das últimas semanas temos feito uma leitura continuado do quinto capítulo do evangelho de Mateus. Trata-se de um discurso de Jesus direcionado a todos, mas com especial ênfase, para os seus discípulos, como bem nos recorda o texto ao “informar” que os discípulos tomaram a dianteira: “Os discípulos aproximaram-se…” (Mt 5,1). Para bem entender o “pano de fundo” do texto, importa recordar que as primeiras comunidades cristãs, de modo especial as de ambiente judaico, se debatiam com a questão: Jesus aboliu a Lei de Moisés? O evangelho irá procurar responder a esta questão.

No versículos 17 a 19, Mateus recorda que Jesus não veio abolir a Lei de Deus. A Lei de Deus continua válida, porém, deve ser olhada não como um conjunto de prescrições legais e externas, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus.

Na segunda parte do texto (vs 20-37), Mateus refere quatro exemplos concretos desta nova forma de entender a Lei (na realidade, são seis os exemplos que aparecem no conjunto do texto de Mateus, porém, o evangelho deste domingo apenas apresenta quatro; os outros dois serão apresentados no próximo domingo).

O primeiro (vs 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige o não matar (veja Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao próximo… Os discípulos de Jesus não podem limitar-se a cumprir o que está na Lei; têm que assumir uma nova atitude, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do próximo. A título de exemplificação, Mateus aproveita para apresentar uma catequese sobre a urgência da reconciliação. Para o evangelista, a reconciliação com o próximo deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama o próximo!

O segundo (vs 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (veja Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir além e ir agir na raiz do problema – ou seja, o coração da pessoa… É no coração que nascem os desejos de posse daquilo que não lhe pertence; portanto, é a esse nível que é preciso realizar uma “conversão”. A referência ao arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes (bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de traduzir à letra) para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más da pessoa têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.

O terceiro (vs 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (veja Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei tem de ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida.

O quarto (vs 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (veja Lv 19,12; Nm 20,3; Dt 23,22-24); mas, na perspectiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com o “Reino”. Para os que estão inseridos na dinâmica do “Reino”, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é, assim, supérflua.

A questão essencial é, portanto, quem quer fazer parte deste “Reino” não pode se restringir ao cumprir formalidades, mas deve aderir totalmente ao “Reino” que comporta um estilo de vida.

2. MEDITATIO – meditação

Qual a importância da Lei de Deus na minha vida? Vejo-a como algo que deve obedecer cegamente ou como uma atitude a seguir na minha vida?

“Não matar” para Jesus é evitar tudo aquilo que cause dano ao meu próximo. Será que minhas atitudes estão de acordo com esta perspectiva de Jesus?

A reconciliação com o próximo é colocada como condição para que as nossas celebrações sejam verdadeiras. Estou reconciliado com todos?

3. ORATIO – oração

A novidade de Jesus não passa por abolir aquilo que já era proposto, mas por uma nova atitude perante essa mesma lei. Muitas vezes os mandamentos são vistos como “empecilhos” para a minha liberdade/felicidade. Ore para que Jesus lhe dê a coragem de não ficar na obediência cega às leis, mas a aderir totalmente em corpo e espírito à sua proposta de liberdade/felicidade.

4. CONTEMPLATIO – contemplação

Contemple Jesus em sua missão realizando na sua própria vida esta “antiga/nova” lei. Veja quantas vezes parece ter ido contra a lei, porque a vida do próximo tem a primaxia.

5. MISSIO – missão
“Sede simples e verdadeiros. O que é sim, seja sim; o que é não, seja não. Sede transparentes no falar: dizei as coisas como são ou como pensais que sejam.” José Allamano






terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O papel dos ex-seminaristas na Igreja

Por: Pe. J. B. Libanio, sj*

As experiências passadas desempenham papel extremamente ambivalente na vida das pessoas. Umas servem de alento, de força vital, de incentivo para caminhar, crescer, abrir-se ao mundo. Outras paralisam, bloqueiam, inferiorizam as pessoas. É difícil entender por onde passa o divisor de águas. Tal constatação vale para os ex-seminaristas. Entre eles existem desde ateus e revoltados contra a Igreja, carregando escuras manchas do tempo de seminário, até pessoas que se comovem às lágrimas quando pensam nos idos da vida clerical.

Esse numeroso contingente de homens, hoje espalhado pelo país e fora dele, por profissões e atividades bem diversas, merece atenção pastoral especial. Além das habilidades que adquiriram depois da saída do seminário, muitos conservam excelente formação religiosa e teológica que prestaria valiosa contribuição para a comunidade eclesial.

Não temos a mínima ideia da riqueza humana e religiosa que os ex-seminaristas significam. Um primeiro passo para tomar pé nesse enorme oceano humano consiste em levantar-lhes os nomes e dados mínimos sobre a dupla experiência do tempo de seminário e depois dela. Acrescentar-se-ia a esse primeiro levantamento uma coluna de sugestões e de disponibilidade pastoral que oferecem.

Que tal se alguma cúria ou secretariado de pastoral criasse um site de ex-seminaristas e então se conversasse com a finalidade de agrupá-los, pô-los em relação entre si e com alguém que os coordenasse?

Quanta proposta maravilhosa surgiria!

Certas pessoas dispõem de potencial incalculável, que, entretanto, não rende frutos por falta de ocasião ou de algum empurrãozinho inicial. Talvez nem lhes tenha ocorrido que, com a formação recebida no seminário diocesano ou religioso, contribuiriam altamente para o enriquecimento da vida da Igreja. A catequese, a pastoral da juventude, o ministério da escuta, a ajuda em campos específicos – psicológicos, jurídicos, técnicos e outros – encontrariam inúmeras pessoas disponíveis que, além dos talentos profissionais, trazem experiências espirituais de valor.

Os seminários e a vida religiosa já viram passar por seus muros multidões inumeráveis de jovens que guardam recordações positivas e gratidão pelo que receberam. Falta acordar sua memória e impulsionar-lhes o desejo de pôr em prática sonhos um dia acalentados.

Mesmo em relação aos que sofreram traumas ou saíram marcados negativamente, há espaço para a reconciliação. Os antigos já nos semearam a memória com ditos segundo os quais o tempo é ótimo juiz das coisas, cura as feridas, lapida as pedras, abranda o ódio, muda a si e a nós com ele. Apostando no futuro, faz-se possível a dupla pastoral com os ex-seminaristas: de valorização de seu cabedal de riqueza espiritual, intelectual e humana e de “purificação da memória”.

* Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Há mais de três décadas vem se dedicando ao magistério e à pesquisa teológica. Tem vários livros publicados no Brasil e no exterior. É vigário da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes em Vespasiano, na Grande Belo Horizonte-MG.

FONTE: Revista Vida Pastoral – janeiro-fevereiro 2011 – ano 52 – n.276 – p.3.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 5,13-16 - 5º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perde seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade construída sobre a montanha não fica escondida. Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5,13-16)

1. LECTIO – Leitura

O evangelho desta semana é a continuação daquele que foi proposto para reflexão na semana passada. Continuamos no contexto do “discurso da montanha”. Jesus no topo de um monte apresenta uma nova Lei aos seus seguidores.

O texto reúne duas parábolas – a do sal e a da luz – destinadas a evidenciar o papel dos seus discípulos no mundo e a definir a missão daqueles que aceitam viver no espírito das bem-aventuranças.

A primeira parábola é a do sal. O sal é, em primeiro lugar, algo que dá sabor aos alimentos. Também é usado na conservação dos alimentos. Assim, simboliza aquilo que é inalterável… No Antigo Testamento, o sal é usado para significar o valor durável de um contrato; nesse contexto, falar de uma “aliança de sal” (Nm 18,19) é falar de um compromisso permanente, perene (veja 2 Cr 13,5). Deste modo, afirmar que os discípulos são “o sal” significa, portanto, que os discípulos são chamados a trazer ao mundo essa “qualquer coisa mais” que o mundo não tem e que dá sabor; significa também que da fidelidade dos discípulos ao programa anunciado por Jesus (as “bem-aventuranças”) depende a perenidade da aliança entre Deus e a humanidade e a permanência do projeto salvador e libertador de Deus no mundo e na história.

A referência à perda do sabor destina-se a alertar os discípulos para a necessidade de um compromisso efetivo com o testemunho do “Reino”: se os discípulos de Jesus recusarem ser sal e se demitirem das suas responsabilidades, o mundo guiar-se-á por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do “Reino” que Jesus veio propor. Nesse caso, a vida dos discípulos terá sido inútil.

A segunda comparação é a da luz. Para a explicar, Jesus utiliza duas imagens. A primeira imagem (a da cidade situada sobre um monte) leva-nos a recordar o texto Is 60,1-3, onde se fala da “luz” de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, alumiar todos os povos. A interpretação judaica de Is 60,3 aplicava a frase a Israel: o Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Deus diante de todos os povos da terra. A segunda imagem (a da lâmpada colocada sobre o candelabro, a fim de alumiar todos os que estão em casa) repete e explicita a mensagem da primeira: os que aderem ao “Reino” devem ser uma luz que ilumina e desafia o mundo. É possível que haja ainda nestas imagens uma referência ao “Servo de Deus” de Is 42,6 e 49,6, apresentado como a “luz das nações”.

De qualquer forma, a verdade é que, na perspectiva de Jesus, essa presença da “luz” de Deus para alumiar as nações dar-se-á, doravante, nos discípulos, isto é, naqueles que aceitaram o apelo do “Reino” e aderiram à nova Lei (as “bem-aventuranças”) proposta por Jesus. Estas duas imagens não pretendem, contudo, dizer que os discípulos de Jesus devam dar nas vistas, mostrar-se como gente importante, mas pretende dizer que a missão das testemunhas do “Reino” deve levá-las a dar testemunho, a questionar o mundo, a ser uma interpelação profética, a ser um reflexo da luz de Deus; e que não devem esconder-se, demitir-se da sua missão, fugir às suas responsabilidades.

O evangelho se conclui com a exortação que a “luz” dos discípulos brilhe para que todos vejam as suas “boas obras”; obras que os discípulos devem praticar, e que serão um testemunho do “Reino” para todos. Tais obras são, provavelmente, aquelas que Mateus apresenta na segunda parte das “bem-aventuranças”: a “misericórdia”, a “pureza de coração”, a defesa intransigente da paz e da justiça.

A missão dos discípulos é, portanto, a de “dar sabor” ao mundo, garantir à humanidade a perenidade da “aliança” e iluminar o mundo com a “luz” de Deus. Eles são as testemunhas dessa realidade nova que nasce da oferta da salvação e da vivência das “bem-aventuranças”. Neles tem de estar presente essa realidade nova, que Jesus chamava “Reino”.

2. MEDITATIO – meditação

Para mim, ser cristão é um compromisso sério, profético, exigente, que me obriga a testemunhar o “Reino”, mesmo em ambientes adversos, ou é um caminho “morno”, instalado, cômodo, de quem se sente em regra com Deus porque vai à missa ao domingo e cumpre alguns ritos que a Igreja sugere?

Para aqueles com quem contato todos os dias, sou uma pessoa “sem sabor” ou sou uma nota de alegria, de entusiasmo, de otimismo, de esperança numa vida nova vivida ao jeito do Evangelho, ao jeito do “Reino”?

Ser cristão é também ser luz acesa nas “escuridões” deste tempo, apontando os caminhos da vida, da liberdade, do amor, da fraternidade… Eu sou essa luz que aponta no sentido das coisas importantes, impedindo que a vida dos meus irmãos seja “gasta” em coisas sem sentido?

3. ORATIO – oração

Ouse pedir a Deus a coragem de ser um discípulo cheio de sabor. Num mundo onde todos parecem caminhar segundo as “modas” ditadas por uns poucos, que Deus o ajude a ser decidido na sua missão de dar sabor e luz ao mundo.

4. CONTEMPLATIO – contemplação

Deus é “a luz”, eu devo ser o reflexo desta luz, que através da minha fragilidade, apresenta a sua proposta de libertação e de vida nova ao mundo. Contemple a luz, deixe-se “iluminar” desta luz radiante, para que depois você possa refletir sempre mais esta poderosa luz.

5. MISSIO – missão

“Uma das principais qualidades do missionário é a determinação e a força de vontade. Para ser um verdadeiro missionário é preciso ter vontade firme e ser constante. Deus não tolera as meias-vontades; estas jamais conseguirão realizar coisa alguma.” José Allamano



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O valor de cada um...

Um menino entrou numa loja de animais e perguntou o preço dos filhotes de cachorro que estavam à venda.

- Entre R$ 60,00 e 100,00, respondeu o dono.

O garoto puxou então uns trocados do bolso e disse:
- Mas eu só tenho R$ 10,00... Poderia ver os filhotes?

O dono da loja chamou Lady, a mãe dos cachorrinhos, que veio correndo, seguida por cinco bolinhas de pêlos.

Um dos cachorrinhos vinha mais atrás, com dificuldade, mancando.

O menino apontou aquele bichinho e perguntou:
- O que a de errado com ele?

O proprietário do estabelecimento explicou que ele tinha um problema no quadril e andaria daquele jeito para sempre.

A criança se animou e disse com enorme alegria no olhar:
- esse é o cachorrinho que eu quero comprar!

O dono da loja estranhou...
- Não, você não vai querer comprar esse. Mas, se quiser ficar com ele, eu lhe dou de presente.

O menino emudeceu... Olhou para o dono da loja e falou:
- Eu não quero que você me dê aquele cachorrinho, pois ele vale tanto quanto qualquer um dos outros. Vou pagar o preço que me for pedido. Na verdade, eu lhe dou R$ 10,00 agora e R$ 5,00 por mês, até completar o valor total.

Surpreso o dono da loja contestou:
- Mas este cachorrinho nunca vai poder correr, pular e brincar com você como qualquer um dos outros...

Sério, o menino levantou lentamente a perna esquerda da calça, deixando á mostra a prótese que usava para andar.
- Veja. Eu também não corro muito bem e o cachorrinho vai precisar de alguém que entenda isso...

Às vezes desprezamos as pessoas com quem convivemos todos os dias por causa dos seus "defeitos", quando na verdade somos tão iguais ou pior do que elas. Desconsideramos que essas mesmas pessoas precisam apenas de alguém que as compreenda e as ame, não pelo que elas podem fazer, mas pelo que realmente são. Amar a todos é difícil, mas não impossível.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lectio Divina de Mt 5,1-12 - 4º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (Mateus 5,1-12)

1. LECTIO – Leitura

O evangelho desta semana é bem conhecido e, provavelmente, terá já sido refletido diversas vezes, tal pode ser uma vantagem, mas também um desvantagem. Vantagem porque dispomos desde logo boas referências do texto; desvantagem porque o fato de conhecermos “bem” o texto nos faz não observar alguns detalhes que são importantes. Assim, o primeiro convite é a ler o testo como se fosse a primeira vez.

Depois de dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.

O evangelista Mateus organiza o seu “alicerça” seu evangelho em cinco grandes pilares, que são os cinco grandes discursos presentes no evangelho. Provavelmente a inspiração de Mateus vem dos cinco livros do Pentateuco, desde logo afirmando quem em Jesus se receberá uma nova lei. Estamos considerando parte do primeiro desses cinco discursos, conhecido como o “sermão da montanha” (Mt 5-7).

Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.

As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (Lc 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano.

As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura, quer nas ações de graças pela alegria presente, quer nas exortações a uma vida sábia e prudente. O ponto em comum é que se referem sempre a uma alegria oferecida por Deus.

Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são “bem-aventurados” porque, pela sua situação estão disponíveis para acolher a proposta de salvação e libertação de Deus.

As quatro primeiras “bem-aventuranças” estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” e os felecitam porque se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade. Os “pobres em espírito” são aqueles que aceitam renunciar aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.

Os “mansos” não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do “Reino”.

Os “que choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…

A quarta bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome e sede de justiça”. Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.

O segundo grupo de “bem-aventuranças” (7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.

Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros, que são capazes de ir ao encontro do outro e estender-lhe a mão.

Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.

Os “que constroem a paz” são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação.

Os “que são perseguidos por causa da justiça” são aqueles que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.

Na última “bem-aventurança” (11) temos uma exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do seu lado; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.

2. MEDITATIO – meditação

Os primeiros a serem declarados felizes são os pobres, mas hoje os que são considerados “felizes” sãos os ricos, os que têm muito dinheiro. Na verdade, o que é verdadeira felicidade?

Ao reler o texto consegue concordar com aqueles que são declarados felizes? Acredita que é esse o caminho da felicidade?

3. ORATIO – oração

As bem-aventuranças são desafiadoras, são um convite radical de Jesus para o nosso tempo que parece viver “ao contrário”. Peça ao Senhor a coragem para acolher o seu convite e aceitar esta nova lógica.

4. CONTEMPLATIO – contemplação

Releia o texto e imagine estar presente naquele episódio. A montanha, Jesus que convida a sentar, a multidão pronta para o escutar, Jesus falando… Qual seria a sua reação às palavras de Jesus?

5. MISSIO – missão
“Como é triste ver um companheiro necessitado de ajuda e os outros que estão ali presentes, nãos e mexerem! Tal como nossas mãos se ajudam uma à outra, assim também nós devemos ajudar-nos uns aos outros.” José Allamano



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O mito da caverna - Platão

  Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. Entre o muro e o chão da caverna há uma fresta por onde passa um fino feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder mover a cabeça nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros nem a si mesmos, mas apenas sombras dos outros e de si mesmos porque estão no escuro e imobilizados.
  Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam pro­jetadas como sombras nas paredes do fundo da caver­na. Do lado de fora, pessoas passam conversando e car­regando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres e animais cujas sombras também são projeta­das na parede da caverna, como num teatro de fanto­ches.
  Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que trans­portam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam. Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coisas que julgam ver (sem vê-Ias realmente, pois estão na obs­curidade) e imaginam que o que escutam, e que não sabem que são sons vindos de fora, são as vozes das pró­prias sombras e não dos homens cujas imagens estão projetadas na parede; também imaginam que os sons produzidos pelos artefatos que esses homens carregam nos ombros são vozes de seres reais.
  Qual é, pois, a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam sombras por realidade, tanto as sombras das coi­sas e dos homens exteriores como as sombras dos artefa­tos fabricados por eles. Essa confusão, porém, não tem co­mo causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram.
  Que aconteceria se fossem libertados dessa condição de miséria? Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-Ia. Fabrica um instru­mento com o qual quebra os grilhões. De início, move a ca­beça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando os obstáculos de um cami­nho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primei­ra vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obri­gado a decidir onde sé encontra a realidade: no que vê ago­ra ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento (literalmente: ferido pela luz) porque seus olhos não con­seguem ver com nitidez as coisas iluminadas.
  Seu primei­ro impulso é o de retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto, atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna on­de tudo lhe é familiar e conhecido. Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior.
  Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vi­da toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Dora­vante, desejará ficar longe da caverna para sempre e luta­rá com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e con­vencê-los a se libertarem também.
  Que lhe acontece nesse retorno? Os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com suas caçoadas, tentam faze-lo espancando-o. Se mesmo assim ele teima em afirmar o que viu e os convida a sair da caverna, certamente aca­bam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns podem ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidir sair da caverna rumo à realidade.
O que é a caverna? O mundo de aparências em que vi­vemos.
Que são as sombras projetadas no fundo? As coi­sas que percebemos.
Que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade.
Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo.
O que é a luz do Sol? A luz da verdade.
O quê é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A realidade.
Qual o instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com o qual ele deseja libertar os ou­tros prisioneiros? A Filosofia.

(Marilena Chaui – Convite a Filosofia)
 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 4,12-23 - 3º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

Quando soube que João tinha sido preso, Jesus retirou-se para a Galiléia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galiléia, no território de Zabulon e de Neftali, para cumprir-se o que foi dito pelo profeta Isaías: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região além do Jordão, Galiléia, entregue às nações pagãs! O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu”. Daí em diante, Jesus começou a anunciar: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo”. Caminhando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram. Prosseguindo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam no barco, com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Ele os chamou. Deixando imediatamente o barco e o pai, eles o seguiram. Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo. (Mateus 4,12-23)


1. LECTIO – Leitura
Neste domingo somos “transportados” até Galiléia, a região setentrional da Palestina, ponto de encontro de muitos povos. Encontramos uma outra referência geoagráfica à cidade de Cafarnaum: situada no limite do território de Zabulão e de Neftali, na margem noroeste do lago de Genezaré, considerada a capital judaica da Galileia (embora Tiberíades fosse a capital política). A sua situação geográfica abria-lhe, também, as portas dos territórios dos povos pagãos da margem oriental do lago.

Num primeiro momento, o evangelista Mateus refere como Jesus abandona Nazaré, o seu lugar de residência habitual, e se transfere para Cafarnaum. Mateus descobre nesse fato um significado profundo, à luz de Is 8,23-9,1: a “luz” que havia de eliminar as trevas e as sombras da morte de que fala Isaías é, para Mateus, o próprio Jesus. Será exatamente na terra humilhada de Zabulão e Neftali, que vai começar a brilhar a luz da libertação. O anúncio libertador de Jesus apresenta, desde logo, uma dimensão universal, assim, não é por acaso que o primeiro anúncio comece na Galiléia, terra onde os gentios se misturam com os judeus.

Num segundo momento, o evangelista apresenta o início da missão de Jesus, definindo o conteúdo básico da pregação, mostrando o “Reino” como realidade viva e apresentando os primeiros discípulos que acolhem o apelo do “Reino” e que vão seguir Jesus na missão.

Conteúdo do anúncio: o versículo 17 é explicito, Jesus veio trazer “o Reino”. A expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos céus”, como prefere dizer Mateus) refere-se, no Antigo Testamento e na época de Jesus, ao exercício do poder soberano de Deus sobre a humanidade). Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. O seu primeiro anúncio resume-se, para Mateus, no seguinte proposta: “arrependei-os (‘metanoeite’) porque o Reino dos céus está a chegar”.

O convite à conversão (“metanoia”) é um convite a uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura vital. Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo a que Deus e os seus valores passem a estar no centro da existência da pessoa; só quando a pessoa aceita que Deus ocupe o lugar que lhe compete, está preparado para aceitar a realeza de Deus… Então, o “Reino” pode nascer e tornar-se realidade no mundo e nos corações.

O “Reino” não é uma realidade vazia, assim, o evangelista mostra desde logo a construção dete “reino” realizada através de Jesus. Tal é realizado através das suas palavras e dos seus gestos (milagres, curas, expulsões) são sinais evidentes de que Deus começou já a reinar e a transformar a escravidão em vida e liberdade.

Por último, Mateus descreve o chamado dos primeiros discípulos. Estamos perante um texto com um intuito catequético sobre o chamado e a adesão ao projeto do “Reino”. Através da resposta imediata de Pedro e André, Tiago e João, propõe-se um exemplo da conversão radical ao “Reino” e de adesão às suas exigências.

O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão. A resposta dos quatro discípulos ao chamamento é paradigmática: renunciam à família, ao seu trabalho, à segurança e seguem Jesus sem condições. Esta ruptura indicia uma opção radical pelo “Reino” e pelas suas exigências.

Os discípulos serão “pescadores de homens”. O mar é, na cultura judaica, o lugar dos demônios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade; logo, a missão dos discípulos será colaborar na libertação da humanidade de tudo o que a impede de alcançar a verdadeira vida.

Os primeiros quatro discípulos representam todo o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares… Estes são o paradigma para aqueles que hoje chamados a continuar a colaboração na libertação da humanidade.

2. MEDITATIO – meditação
O primeiro anúncio de Jesus é um apelo à conversão. O que é que na minha vida, nas minhas escolhas, nos meus comportamentos constitui um obstáculo à chegada do “Reino”?

A resposta dos primeiros chamados se caracteriza pela prontidão da resposta. A minha resposta a Deus como é que a caracterizo?

Os discípulos são chamados a “pescadores de homens”, colaborando na libertação da humanidade de tudo o que não leva à vida. Estou dentro deste projeto de libertação?

3. ORATIO – oração
Ore para ser capaz de responder prontamente ao apelo de Jesus, para que tenha a coragem de deixar os seus projetos para abraçar o grande projeto de Deus para você.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple Jesus que se aproxima de você e o convida a segui-lo. Abandone-se a este Jesus que a/o convida a ir mais além.

5. MISSIO – missão
“A vocação ao apostolado é própria de todos aqueles que amam intensamente a Deus, que anseiam por fazê-lo amar, e estão dispostos a qualquer sacrifício para conseguir tão nobre intento” José Allamano

Disponível semanalmente em http://www.consolata.org.br/ e http://www.palavramissionaria.com.br/

sábado, 15 de janeiro de 2011

O ferreiro

Havia um ferreiro numa vila que após uma vida de excessos resolveu consagrar sua vida a Deus. Durante muitos anos, procurou realizar caridade, cumpria com seus deveres, mantia seus valores morais, mas, apesar de todo este esforço e dedicação nada parecia dar certo em sua vida, pelo contrário, dívidas cresciam e acumulavam, brigas constantes, etc.

Uma bela tarde, um amigo que o visitara, e que se compadeceu de sua situação dificil, comentou: ” É realmente estranho que justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar”. E ele continuou : ” Não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença espiritual, parece que nada tem melhorado”.

O ferreiro não conseguiu respondê-lo imediatamente, mas sentia que necessitava dizer algo para o amigo. Ele já havia meditado no assunto várias vezes e se colocado a mesma questão. Entretanto sentia que algo de maior atuava e baseando-se nisso respondeu: “Eu recebo em minha oficina o metal, aço, que ainda não foi trabalhado e preciso transformá-los em espada. Você sabe como faõ isso? Primeiro aqueço o metal num calor absurdo, até que fique, vermelho. Em seguida golpeio com meus martelos mais pesados para dar-lhe a forma desejada. Logo depois mergulho a peça no balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor. Repito estas ações até que obtenha a espada perfeita. Uma vez não é suficiente” .

O ferreiro deu uma longa pausa e continuou: ” As vezes o aço que chega até minhas mãos não consegue suportar o tratamento… o calor, as marteladas, água fria, acabam por gerar rachaduras nele. E eu sei que ele não dará uma boa espada . Então eu simplesmente o coloco num monte de ferro velho que tenho em frente a minha oficina. “

O ferreiro fez outro longa pausa e terminou: ” Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições; tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes, sinto-me tão frio e insensivel como a água fria que faz sofrer o aço. Mas a unica que coisa que peço em minhas orações é que Deus não desista de mim e continue até que eu tome a forma que ele espera de mim. E que jamais desista de mim e me coloque na pilha do ferro velho de almas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lectio Divina de João 1,29-34 - 2º Domingo do Tempo Comum

Por Patrick Silva, imc

No dia seguinte, João viu que Jesus vinha a seu encontro e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. É dele que eu falei: ‘Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque antes de mim ele já existia’! Eu também não o conhecia, mas vim batizar com água para que ele fosse manifestado a Israel”. João ainda testemunhou: “Eu vi o Espírito descer do céu, como pomba, e permanecer sobre ele. Pois eu não o conhecia, mas aquele que me enviou disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, é ele quem batiza com o Espírito Santo’. Eu vi, e por isso dou testemunho: ele é o Filho de Deus!” (João 1,29-34)

1. LECTIO – Leitura

Após todas as festividades que foram propostas pela liturgia durante o tempo de Natal, agora caminharemos no “tempo comum”, onde não celebramos festas “especiais”, mas continuamos celebrando e atualizando a Páscoa do Senhor. Para começar, lemos um trecho da parte inicial do evangelho João, onde o evangelista começa a responder à questão: “quem é este Jesus”? A primeira pessoa que vai oferecer uma resposta é João Batista. João Baptista, o percursor, desempenha aqui um papel especial. Cabe a ele, apresentar aquele que está chegando e o apresentar à humanidade. Assim, podemos dizer que João é o apresentador de Jesus. A apresentação é feita através de duas afirmações com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.

A primeira afirmação (“Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”) evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação dos pecado (imagem presente nos textos de Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (veja Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação. Sua missão é tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados” das pessoas, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse “pecado” provavelmente no contexto de João se refere à recusa da proposta de vida com que Deus quis presentear a humanidade. O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação, reduzida à escravidão e que recusa a luz/vida que Jesus lhe pretende oferecer… Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que esta se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo êxodo, que leve a humanidade da terra da escravidão para a terra da liberdade.

A segunda afirmação (o “Filho de Deus”) completa a afirmação anterior. Temos vários elementos sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por missão batizar a humanidade no Espírito. Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro da humanidade, que monta a sua tenda no meio desta, com a finalidade de lhe oferecer a plenitude da vida divina. Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”).

Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “ensopar (como a chuva ensopa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contato total entre a água e o sujeito. “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contato total entre o Espírito e a pessoa, uma chuva de Espírito que cai sobre a pessoa e lhe “ensopa” o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre a pessoa; a qual aderindo a Jesus e “ensopado” do Espírito abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança a plenitude da vida.

2. MEDITATIO – meditação

João batista foi quem apresentou Jesus à humanidade, Também sou um “apresentador” de Jesus aos que me rodeiam?

Tenho consciência de que estou “ensopado” do Espírito Santo, que me convida a abandonar a “escuridão” para aderir à vida plena?

A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. Será que é isso que realizo em minha caminhada cristã?

3. ORATIO – oração
Peça a Deus o dom do Espírito, para que cheio do Espírito viva segundo o projeto de Deus e assim alcance a vida plena, cheia da felicidade divina.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
No silêncio contemple este Jesus Filho de Deus que vem oferecer a libertação dos nossos pecados e nos encaminhar para a luz verdadeira.

5. MISSIO – missão
“O Espírito Santo é fogo, é chama ardente. Todos nós devemos viver inflamados nesse amor. Peçamos que este fogo divino nos envolva totalmente e nos aqueça. É preciso amar, amar, porque o Espírito Santo é todo amor.” José Allamano