Missionário da Consolata na Colômbia e no Equador...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O valor de cada um...

Um menino entrou numa loja de animais e perguntou o preço dos filhotes de cachorro que estavam à venda.

- Entre R$ 60,00 e 100,00, respondeu o dono.

O garoto puxou então uns trocados do bolso e disse:
- Mas eu só tenho R$ 10,00... Poderia ver os filhotes?

O dono da loja chamou Lady, a mãe dos cachorrinhos, que veio correndo, seguida por cinco bolinhas de pêlos.

Um dos cachorrinhos vinha mais atrás, com dificuldade, mancando.

O menino apontou aquele bichinho e perguntou:
- O que a de errado com ele?

O proprietário do estabelecimento explicou que ele tinha um problema no quadril e andaria daquele jeito para sempre.

A criança se animou e disse com enorme alegria no olhar:
- esse é o cachorrinho que eu quero comprar!

O dono da loja estranhou...
- Não, você não vai querer comprar esse. Mas, se quiser ficar com ele, eu lhe dou de presente.

O menino emudeceu... Olhou para o dono da loja e falou:
- Eu não quero que você me dê aquele cachorrinho, pois ele vale tanto quanto qualquer um dos outros. Vou pagar o preço que me for pedido. Na verdade, eu lhe dou R$ 10,00 agora e R$ 5,00 por mês, até completar o valor total.

Surpreso o dono da loja contestou:
- Mas este cachorrinho nunca vai poder correr, pular e brincar com você como qualquer um dos outros...

Sério, o menino levantou lentamente a perna esquerda da calça, deixando á mostra a prótese que usava para andar.
- Veja. Eu também não corro muito bem e o cachorrinho vai precisar de alguém que entenda isso...

Às vezes desprezamos as pessoas com quem convivemos todos os dias por causa dos seus "defeitos", quando na verdade somos tão iguais ou pior do que elas. Desconsideramos que essas mesmas pessoas precisam apenas de alguém que as compreenda e as ame, não pelo que elas podem fazer, mas pelo que realmente são. Amar a todos é difícil, mas não impossível.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lectio Divina de Mt 5,1-12 - 4º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e ele começou a ensinar: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (Mateus 5,1-12)

1. LECTIO – Leitura

O evangelho desta semana é bem conhecido e, provavelmente, terá já sido refletido diversas vezes, tal pode ser uma vantagem, mas também um desvantagem. Vantagem porque dispomos desde logo boas referências do texto; desvantagem porque o fato de conhecermos “bem” o texto nos faz não observar alguns detalhes que são importantes. Assim, o primeiro convite é a ler o testo como se fosse a primeira vez.

Depois de dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.

O evangelista Mateus organiza o seu “alicerça” seu evangelho em cinco grandes pilares, que são os cinco grandes discursos presentes no evangelho. Provavelmente a inspiração de Mateus vem dos cinco livros do Pentateuco, desde logo afirmando quem em Jesus se receberá uma nova lei. Estamos considerando parte do primeiro desses cinco discursos, conhecido como o “sermão da montanha” (Mt 5-7).

Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.

As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (Lc 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano.

As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura, quer nas ações de graças pela alegria presente, quer nas exortações a uma vida sábia e prudente. O ponto em comum é que se referem sempre a uma alegria oferecida por Deus.

Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são “bem-aventurados” porque, pela sua situação estão disponíveis para acolher a proposta de salvação e libertação de Deus.

As quatro primeiras “bem-aventuranças” estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” e os felecitam porque se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade. Os “pobres em espírito” são aqueles que aceitam renunciar aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.

Os “mansos” não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do “Reino”.

Os “que choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…

A quarta bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome e sede de justiça”. Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.

O segundo grupo de “bem-aventuranças” (7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.

Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros, que são capazes de ir ao encontro do outro e estender-lhe a mão.

Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.

Os “que constroem a paz” são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação.

Os “que são perseguidos por causa da justiça” são aqueles que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.

Na última “bem-aventurança” (11) temos uma exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.

No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do seu lado; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.

2. MEDITATIO – meditação

Os primeiros a serem declarados felizes são os pobres, mas hoje os que são considerados “felizes” sãos os ricos, os que têm muito dinheiro. Na verdade, o que é verdadeira felicidade?

Ao reler o texto consegue concordar com aqueles que são declarados felizes? Acredita que é esse o caminho da felicidade?

3. ORATIO – oração

As bem-aventuranças são desafiadoras, são um convite radical de Jesus para o nosso tempo que parece viver “ao contrário”. Peça ao Senhor a coragem para acolher o seu convite e aceitar esta nova lógica.

4. CONTEMPLATIO – contemplação

Releia o texto e imagine estar presente naquele episódio. A montanha, Jesus que convida a sentar, a multidão pronta para o escutar, Jesus falando… Qual seria a sua reação às palavras de Jesus?

5. MISSIO – missão
“Como é triste ver um companheiro necessitado de ajuda e os outros que estão ali presentes, nãos e mexerem! Tal como nossas mãos se ajudam uma à outra, assim também nós devemos ajudar-nos uns aos outros.” José Allamano



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O mito da caverna - Platão

  Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. Entre o muro e o chão da caverna há uma fresta por onde passa um fino feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder mover a cabeça nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros nem a si mesmos, mas apenas sombras dos outros e de si mesmos porque estão no escuro e imobilizados.
  Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam pro­jetadas como sombras nas paredes do fundo da caver­na. Do lado de fora, pessoas passam conversando e car­regando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres e animais cujas sombras também são projeta­das na parede da caverna, como num teatro de fanto­ches.
  Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que trans­portam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam. Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coisas que julgam ver (sem vê-Ias realmente, pois estão na obs­curidade) e imaginam que o que escutam, e que não sabem que são sons vindos de fora, são as vozes das pró­prias sombras e não dos homens cujas imagens estão projetadas na parede; também imaginam que os sons produzidos pelos artefatos que esses homens carregam nos ombros são vozes de seres reais.
  Qual é, pois, a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam sombras por realidade, tanto as sombras das coi­sas e dos homens exteriores como as sombras dos artefa­tos fabricados por eles. Essa confusão, porém, não tem co­mo causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram.
  Que aconteceria se fossem libertados dessa condição de miséria? Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-Ia. Fabrica um instru­mento com o qual quebra os grilhões. De início, move a ca­beça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando os obstáculos de um cami­nho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primei­ra vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obri­gado a decidir onde sé encontra a realidade: no que vê ago­ra ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento (literalmente: ferido pela luz) porque seus olhos não con­seguem ver com nitidez as coisas iluminadas.
  Seu primei­ro impulso é o de retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto, atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna on­de tudo lhe é familiar e conhecido. Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior.
  Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vi­da toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Dora­vante, desejará ficar longe da caverna para sempre e luta­rá com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e con­vencê-los a se libertarem também.
  Que lhe acontece nesse retorno? Os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com suas caçoadas, tentam faze-lo espancando-o. Se mesmo assim ele teima em afirmar o que viu e os convida a sair da caverna, certamente aca­bam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns podem ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidir sair da caverna rumo à realidade.
O que é a caverna? O mundo de aparências em que vi­vemos.
Que são as sombras projetadas no fundo? As coi­sas que percebemos.
Que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade.
Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo.
O que é a luz do Sol? A luz da verdade.
O quê é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A realidade.
Qual o instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com o qual ele deseja libertar os ou­tros prisioneiros? A Filosofia.

(Marilena Chaui – Convite a Filosofia)
 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 4,12-23 - 3º Domingo do Tempo Comum

Por: Patrick Silva, imc

Quando soube que João tinha sido preso, Jesus retirou-se para a Galiléia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galiléia, no território de Zabulon e de Neftali, para cumprir-se o que foi dito pelo profeta Isaías: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região além do Jordão, Galiléia, entregue às nações pagãs! O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu”. Daí em diante, Jesus começou a anunciar: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo”. Caminhando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram. Prosseguindo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam no barco, com seu pai Zebedeu, consertando as redes. Ele os chamou. Deixando imediatamente o barco e o pai, eles o seguiram. Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo. (Mateus 4,12-23)


1. LECTIO – Leitura
Neste domingo somos “transportados” até Galiléia, a região setentrional da Palestina, ponto de encontro de muitos povos. Encontramos uma outra referência geoagráfica à cidade de Cafarnaum: situada no limite do território de Zabulão e de Neftali, na margem noroeste do lago de Genezaré, considerada a capital judaica da Galileia (embora Tiberíades fosse a capital política). A sua situação geográfica abria-lhe, também, as portas dos territórios dos povos pagãos da margem oriental do lago.

Num primeiro momento, o evangelista Mateus refere como Jesus abandona Nazaré, o seu lugar de residência habitual, e se transfere para Cafarnaum. Mateus descobre nesse fato um significado profundo, à luz de Is 8,23-9,1: a “luz” que havia de eliminar as trevas e as sombras da morte de que fala Isaías é, para Mateus, o próprio Jesus. Será exatamente na terra humilhada de Zabulão e Neftali, que vai começar a brilhar a luz da libertação. O anúncio libertador de Jesus apresenta, desde logo, uma dimensão universal, assim, não é por acaso que o primeiro anúncio comece na Galiléia, terra onde os gentios se misturam com os judeus.

Num segundo momento, o evangelista apresenta o início da missão de Jesus, definindo o conteúdo básico da pregação, mostrando o “Reino” como realidade viva e apresentando os primeiros discípulos que acolhem o apelo do “Reino” e que vão seguir Jesus na missão.

Conteúdo do anúncio: o versículo 17 é explicito, Jesus veio trazer “o Reino”. A expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos céus”, como prefere dizer Mateus) refere-se, no Antigo Testamento e na época de Jesus, ao exercício do poder soberano de Deus sobre a humanidade). Jesus tem consciência de que a chegada do “Reino” está ligada à sua pessoa. O seu primeiro anúncio resume-se, para Mateus, no seguinte proposta: “arrependei-os (‘metanoeite’) porque o Reino dos céus está a chegar”.

O convite à conversão (“metanoia”) é um convite a uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura vital. Corresponde, fundamentalmente, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo a que Deus e os seus valores passem a estar no centro da existência da pessoa; só quando a pessoa aceita que Deus ocupe o lugar que lhe compete, está preparado para aceitar a realeza de Deus… Então, o “Reino” pode nascer e tornar-se realidade no mundo e nos corações.

O “Reino” não é uma realidade vazia, assim, o evangelista mostra desde logo a construção dete “reino” realizada através de Jesus. Tal é realizado através das suas palavras e dos seus gestos (milagres, curas, expulsões) são sinais evidentes de que Deus começou já a reinar e a transformar a escravidão em vida e liberdade.

Por último, Mateus descreve o chamado dos primeiros discípulos. Estamos perante um texto com um intuito catequético sobre o chamado e a adesão ao projeto do “Reino”. Através da resposta imediata de Pedro e André, Tiago e João, propõe-se um exemplo da conversão radical ao “Reino” e de adesão às suas exigências.

O relato sublinha uma diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos que se juntavam à volta dos mestres do judaísmo: não são os discípulos que escolhem o mestre e pedem para entrar no seu grupo, como acontecia com os discípulos dos “rabbis”; mas a iniciativa é de Jesus, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão. A resposta dos quatro discípulos ao chamamento é paradigmática: renunciam à família, ao seu trabalho, à segurança e seguem Jesus sem condições. Esta ruptura indicia uma opção radical pelo “Reino” e pelas suas exigências.

Os discípulos serão “pescadores de homens”. O mar é, na cultura judaica, o lugar dos demônios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade; logo, a missão dos discípulos será colaborar na libertação da humanidade de tudo o que a impede de alcançar a verdadeira vida.

Os primeiros quatro discípulos representam todo o grupo dos discípulos, de todos os tempos e lugares… Estes são o paradigma para aqueles que hoje chamados a continuar a colaboração na libertação da humanidade.

2. MEDITATIO – meditação
O primeiro anúncio de Jesus é um apelo à conversão. O que é que na minha vida, nas minhas escolhas, nos meus comportamentos constitui um obstáculo à chegada do “Reino”?

A resposta dos primeiros chamados se caracteriza pela prontidão da resposta. A minha resposta a Deus como é que a caracterizo?

Os discípulos são chamados a “pescadores de homens”, colaborando na libertação da humanidade de tudo o que não leva à vida. Estou dentro deste projeto de libertação?

3. ORATIO – oração
Ore para ser capaz de responder prontamente ao apelo de Jesus, para que tenha a coragem de deixar os seus projetos para abraçar o grande projeto de Deus para você.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple Jesus que se aproxima de você e o convida a segui-lo. Abandone-se a este Jesus que a/o convida a ir mais além.

5. MISSIO – missão
“A vocação ao apostolado é própria de todos aqueles que amam intensamente a Deus, que anseiam por fazê-lo amar, e estão dispostos a qualquer sacrifício para conseguir tão nobre intento” José Allamano

Disponível semanalmente em http://www.consolata.org.br/ e http://www.palavramissionaria.com.br/

sábado, 15 de janeiro de 2011

O ferreiro

Havia um ferreiro numa vila que após uma vida de excessos resolveu consagrar sua vida a Deus. Durante muitos anos, procurou realizar caridade, cumpria com seus deveres, mantia seus valores morais, mas, apesar de todo este esforço e dedicação nada parecia dar certo em sua vida, pelo contrário, dívidas cresciam e acumulavam, brigas constantes, etc.

Uma bela tarde, um amigo que o visitara, e que se compadeceu de sua situação dificil, comentou: ” É realmente estranho que justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar”. E ele continuou : ” Não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença espiritual, parece que nada tem melhorado”.

O ferreiro não conseguiu respondê-lo imediatamente, mas sentia que necessitava dizer algo para o amigo. Ele já havia meditado no assunto várias vezes e se colocado a mesma questão. Entretanto sentia que algo de maior atuava e baseando-se nisso respondeu: “Eu recebo em minha oficina o metal, aço, que ainda não foi trabalhado e preciso transformá-los em espada. Você sabe como faõ isso? Primeiro aqueço o metal num calor absurdo, até que fique, vermelho. Em seguida golpeio com meus martelos mais pesados para dar-lhe a forma desejada. Logo depois mergulho a peça no balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor. Repito estas ações até que obtenha a espada perfeita. Uma vez não é suficiente” .

O ferreiro deu uma longa pausa e continuou: ” As vezes o aço que chega até minhas mãos não consegue suportar o tratamento… o calor, as marteladas, água fria, acabam por gerar rachaduras nele. E eu sei que ele não dará uma boa espada . Então eu simplesmente o coloco num monte de ferro velho que tenho em frente a minha oficina. “

O ferreiro fez outro longa pausa e terminou: ” Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições; tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes, sinto-me tão frio e insensivel como a água fria que faz sofrer o aço. Mas a unica que coisa que peço em minhas orações é que Deus não desista de mim e continue até que eu tome a forma que ele espera de mim. E que jamais desista de mim e me coloque na pilha do ferro velho de almas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lectio Divina de João 1,29-34 - 2º Domingo do Tempo Comum

Por Patrick Silva, imc

No dia seguinte, João viu que Jesus vinha a seu encontro e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. É dele que eu falei: ‘Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque antes de mim ele já existia’! Eu também não o conhecia, mas vim batizar com água para que ele fosse manifestado a Israel”. João ainda testemunhou: “Eu vi o Espírito descer do céu, como pomba, e permanecer sobre ele. Pois eu não o conhecia, mas aquele que me enviou disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, é ele quem batiza com o Espírito Santo’. Eu vi, e por isso dou testemunho: ele é o Filho de Deus!” (João 1,29-34)

1. LECTIO – Leitura

Após todas as festividades que foram propostas pela liturgia durante o tempo de Natal, agora caminharemos no “tempo comum”, onde não celebramos festas “especiais”, mas continuamos celebrando e atualizando a Páscoa do Senhor. Para começar, lemos um trecho da parte inicial do evangelho João, onde o evangelista começa a responder à questão: “quem é este Jesus”? A primeira pessoa que vai oferecer uma resposta é João Batista. João Baptista, o percursor, desempenha aqui um papel especial. Cabe a ele, apresentar aquele que está chegando e o apresentar à humanidade. Assim, podemos dizer que João é o apresentador de Jesus. A apresentação é feita através de duas afirmações com um profundo impacto teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e é o Filho de Deus que possui a plenitude do Espírito.

A primeira afirmação (“Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”) evoca, provavelmente, duas imagens tradicionais extremamente sugestivas. Por um lado, evoca a imagem do “servo sofredor”, o cordeiro levado para o matadouro, que assume os pecados do seu Povo e realiza a expiação dos pecado (imagem presente nos textos de Is 52,13-53,12); por outro lado, evoca a imagem do cordeiro pascal, símbolo da ação libertadora de Deus em favor de Israel (veja Ex 12,1-28). Qualquer uma destas imagens sugere que a pessoa de Jesus está ligada à libertação. Sua missão é tirar (“eliminar”) “o pecado do mundo”. A palavra “pecado” aparece, aqui, no singular: não designa os “pecados” das pessoas, mas um “pecado” único que oprime a humanidade inteira; esse “pecado” provavelmente no contexto de João se refere à recusa da proposta de vida com que Deus quis presentear a humanidade. O “mundo” designa, neste contexto, a humanidade que resiste à salvação, reduzida à escravidão e que recusa a luz/vida que Jesus lhe pretende oferecer… Deus propôs-se tirar a humanidade da situação de escravidão em que esta se encontra; enviou ao mundo Jesus, com a missão de realizar um novo êxodo, que leve a humanidade da terra da escravidão para a terra da liberdade.

A segunda afirmação (o “Filho de Deus”) completa a afirmação anterior. Temos vários elementos sugestivos: o “cordeiro” é o Filho de Deus; Ele recebeu a plenitude do Espírito; e tem por missão batizar a humanidade no Espírito. Dizer que Jesus é o Filho de Deus é dizer que Ele é o Deus que se faz pessoa, que vem ao encontro da humanidade, que monta a sua tenda no meio desta, com a finalidade de lhe oferecer a plenitude da vida divina. Dizer que o Espírito desce sobre Jesus e permanece sobre Ele sugere que Jesus possui definitivamente a plenitude da vida de Deus, toda a sua riqueza, todo o seu amor. Por outro lado, a descida do Espírito sobre Jesus é a sua investidura messiânica, a sua unção (“messias” = “ungido”).

Jesus é, finalmente, aquele que batiza no Espírito Santo. O verbo “batizar” aqui utilizado tem, em grego, duas traduções: “submergir” e “ensopar (como a chuva ensopa a terra)”; refere-se, em qualquer caso, a um contato total entre a água e o sujeito. “Batizar no Espírito” significa, portanto, um contato total entre o Espírito e a pessoa, uma chuva de Espírito que cai sobre a pessoa e lhe “ensopa” o coração. A missão de Jesus consiste, portanto, em derramar o Espírito sobre a pessoa; a qual aderindo a Jesus e “ensopado” do Espírito abandona a experiência da escuridão (“o pecado”) e alcança a plenitude da vida.

2. MEDITATIO – meditação

João batista foi quem apresentou Jesus à humanidade, Também sou um “apresentador” de Jesus aos que me rodeiam?

Tenho consciência de que estou “ensopado” do Espírito Santo, que me convida a abandonar a “escuridão” para aderir à vida plena?

A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. Será que é isso que realizo em minha caminhada cristã?

3. ORATIO – oração
Peça a Deus o dom do Espírito, para que cheio do Espírito viva segundo o projeto de Deus e assim alcance a vida plena, cheia da felicidade divina.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
No silêncio contemple este Jesus Filho de Deus que vem oferecer a libertação dos nossos pecados e nos encaminhar para a luz verdadeira.

5. MISSIO – missão
“O Espírito Santo é fogo, é chama ardente. Todos nós devemos viver inflamados nesse amor. Peçamos que este fogo divino nos envolva totalmente e nos aqueça. É preciso amar, amar, porque o Espírito Santo é todo amor.” José Allamano



 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lectio Divina de Mateus 3,13-17 - Batismo do Senhor

Por: Patrick Silva, imc

Jesus veio da Galiléia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João protestou, dizendo: ‘Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?’ Jesus, porém, respondeu-lhe: ‘Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!’ E João concordou. Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado’. (Mateus 3,13-17)

1. LECTIO – Leitura

O tempo de Natal é cheio de festividades. Celebramos o nascimento de Jesus, de seguida Jesus se revelou ao mundo na celebração da Epifania e agora celebramos o Batismo de Jesus. Ao longo destas celebrações somos convidados a realizar um percurso espiritual que nos aproxima de Jesus.

O texto do evangelho apresenta Jesus indo ao encontro de João Baptista afim de ser batizado no rio Jordão. João, o primo e percursor de Jesus, no deserto convidara à conversão, essa conversão passavam por um rito de purificação realizado com água; um rito frequente na época entre os judeus. Nesta perspectiva o que fez Jesus procurar o batismo de João? Para o evangelista Mateus, o batismo é um momento privilegiado da manifestação de Jesus à humanidade: antes de começar a sua atividade, Jesus se apresenta… A passagem tem duas partes: o diálogo entre João e Jesus (vs. 14-15) e a manifestação de Jesus como Filho de Deus (vs. 16-17). Na primeira parte, o diálogo entre João e Jesus explica o porquê da ida de Jesus ao encontro de João para ser batizado… Em sua resposta, Jesus deixa claro que o seu batismo é um passo necessário para a realização da vontade de Deus (“devemos cumprir toda a justiça”… O cumprir a “justiça” equivale ao cumprimento da vontade de Deus. Assim, Jesus se apresenta como “Filho”, que cumpre fielmente a vontade do Pai (na cultura semita, a obediência era aquilo que definia a relação entre um filho e um pai…

Que é que este batismo tem a ver com o projecto salvador do Pai para a humanidade? Ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados (do qual não precisava) Jesus se solidariza com a humanidade limitada e pecadora, assumindo sua condição, colocou-se ao lado da humanidade para a ajudar a sair dessa situação e para percorrer no caminho da libertação, da salvação.

Na segunda parte, temos uma reflexão sobre a identidade de Jesus e sobre a sua missão. Para isso, Mateus recorre a três elementos simbólicos expressivos: os céus abertos, o Espírito que desce em forma de pomba e a voz do céu. A abertura do céu significa a união da terra e do céu. A imagem inspira-se, provavelmente, em Is 63,19, onde o profeta pede a Deus que “abra os céus” e desça ao encontro do seu Povo, refazendo essa relação que o pecado do Povo interrompeu. Desta forma, Mateus anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o céu e a terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens.

O símbolo da pomba não é imediatamente claro… Provavelmente, não se trata de uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca (veja Gn 8,8-12); é mais provável que a pomba (em certas tradições judaicas, símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobra as águas – veja Gn 1,2) evoque a nova criação que terá lugar a partir da ação que Jesus vai iniciar.

Finalmente, a voz do céu. Trata-se de uma forma muito usada pelos rabbis para expressar a opinião de Deus acerca de uma pessoa ou de um acontecimento. Essa voz declara que Jesus é o Filho de Deus; e fá-lo com uma fórmula tomada desse cântico do “Servo de Jahwéh” que encontramos em Is 42,1. Afirmando então que Jesus é o Filho de Deus… Mas acrescenta-se que sua missão acontecerá em obediência total ao Pai.

O episódio do batismo de Jesus oferece a seguinte catequese: Jesus é o Filho de Deus, enviado pelo Pai para cumprir um projeto de salvação em favor da humanidade, para tal o Filho se solidarizou com a humanidade a se incarnar como homem. Através do Filho o Pai realizará uma nova criação, a definitiva criação. Além desta catequese sobre Jesus, o texto sugere outras duas linhas importantes quanto à definição da identidade de Jesus. Uma delas apresenta Jesus como o novo libertador: o batismo de Jesus no Jordão recorda a passagem do Mar Vermelho e estabelece um novo paralelo entre Jesus e Moisés… Jesus é o novo Moisés, revestido do Espírito de Deus, para conduzir o seu Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade. A outra linha torna-se patente no diálogo entre João e Jesus: se João reconhece humildemente a sua inferioridade e a sua condição de percursor, é porque Jesus é esse Messias esperado, da descendência de Davi.

2. MEDITATIO – meditação

No episódio do Batismo de Jesus vemos a confirmação da filiação divina e da missão de Jesus. Em nosso batismo recebemos também a filiação divina e uma missão. Tenho sido fiel ao meu batismo?

Com o seu batismo Jesus assume plenamente a sua condição de “Filho” e se faz obediente ao Pai, cumprindo integralmente o projeto do Pai. É nesta atitude de obediência, de confiança que eu assumo na minha relação com Deus? O projeto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projetos pessoais?

No batismo Jesus aceita solidarizar-se com a debilidade da natureza humana, nas minhas relações sou uma pessoa solidária?

3. ORATIO – oração
Reze por todos aqueles que ao longo deste ano receberão o batismo, pedindo para que sejam fieis ao compromisso assumido. Ore pela sua fidelidade e missão ao serviço do Pai.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Recorde o seu batismo e a condição que lhe concedeu. Você é um filho/filha de Deus. Contemple com amor este Pai que lhe concedeu a condição divina.

5. MISSIO – missão
“Cada qual diga a si próprio, de todo o coração: ‘Eu amo a Deus mais que todos os outros.’ E não tenha medo, que isso não é soberba nenhuma.” José Allamano

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Lectio Divina de Mateus 2,1-12 - Solenidade da Epifania do Senhor

Por: Patrick Silva, imc
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.’ Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: ‘Em Belém, na Judéia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo.’ Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. Depois os enviou a Belém, dizendo: ‘Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo.’ Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho. (Mateus 2,1-12)
1. LECTIO – Leitura
Eis-nos chegados ao início de mais um ano, ao início de mais uma década. No trilhar dos dias deste novo ano nunca nos falte a luz da estrela que oriente a nossa vida, como foi para aqueles três que deixaram a sua terra para ir ao encontro da verdadeira luz. O primeiro domingo do ano oferece uma festa missionária, recordando a todos que este Jesus é o Salvador universal, é a luz para todos.

O evangelho nos dá a ler a vinda dos magos do Oriente orientados por uma estrela. Continuamos no contexto do chamado “Evangelho da Infância”, onde o evangelista continua deixando uma catequese sobre Jesus e a sua missão… Assim, Mateus quer mostrar, recorrendo a símbolos e imagens bem expressivos para os primeiros cristãos, Jesus como o enviado de Deus, que vem oferecer a salvação a toda a humanidade.

É interessante notar a insistência de Mateus no local do nascimento de Jesus, Belém de Judá (vs. 1.5.6.7). Belém era a terra natal do rei Davi e estava ligada a família de Davi. Assim, afirmar que Jesus nasceu em Belém é ligá-lo às profecias que falavam do Messias como um descendente de Davi que haveria de nascer em Belém (veja Mi 5,1.3; 2 Sm 5,2) e restaurar o reino de Davi. Esta insistência tem que ser entendida como resposta aos que não admitiam Jesus como Messias, pois pensavam que ele tivesse nascido em Nazaré, Mateus recorda, em vez, que Jesus nasceu em Belém.
 
De notar, também, a referência à estrela “especial” que conduziu os “magos” até Belém. Muitos foram aqueles que pensando que Mateus estivesse fazendo um relato jornalístico dos acontecimento, através de cálculos astronômicos complicados concluíram que, no ano 6 a.C., uma conjunção de planetas explicaria o fenômeno da estrela que Mateus fala; outros ainda procuraram por um cometa que pudesse explicar o fenômeno… Na realidade, essas investigações são inúteis, pois Mateus não está a narrar fatos históricos. Segundo a crença popular da época, o nascimento de um personagem importante era acompanhado da aparição de uma nova estrela. Também a tradição judaica anunciava o Messias como a estrela que surge de Jacob (veja Nm 24,17). Ou seja, Mateus usou os elementos da sua época para afirmar que Jesus é o Messias.

Atentemos agora à figura dos “magos”. A palavra grega “mágos” usada por Mateus abarca um vasto leque de significados e é aplicada a personagens muito diversas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas, propagandistas religiosos… Aqui, poderia designar astrólogos. Seja como for, esses “magos” representam, na catequese de Mateus, esses povos estrangeiros que encontremos no texto de Is 60,1-6. Os “magos” se põem a caminho de Jerusalém com as suas riquezas (ouro e incenso) para encontrar a luz salvadora de Deus que brilha sobre a cidade santa. Jesus é, na opinião de Mateus e da catequese da Igreja primitiva, essa “luz”.
Desde já vamos encontrar duas atitudes que irão se repetir ao longo do evangelho, de um lado os que acreditam do outro aqueles que rejeitam, enquanto o Povo de Israel rejeita Jesus, os “magos” do oriente (que são pagãos) O adoram. Herodes e Jerusalém “ficam perturbados” diante da notícia do nascimento do menino e planeiam a sua morte, enquanto que os pagãos sentem uma grande alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador.

O trajeto dos “magos” merece também atenção, pois reflete a caminhada que muitos “pagãos” fizeram até encontrar Jesus. Porém, uma vez encontrada a “luz” o caminho é alterado, de fato, os “magos” regressam por outro caminho. Uma vez que se acolhe a Jesus, não é mais possível continuar pelo mesmo caminho.

2. MEDITATIO – meditação
  • Ao olharmos as várias personagens que encontramos no evangelho, notamos respostas diferentes, acolhida, rejeição e indiferença. Perante Jesus qual é a minha atitude?
  • Os “magos” são apresentados como gente atenta aos “sinais”, será que também estou atento aos “sinais de Deus” na minha vida? Ou ando ocupado como muitas coisas que não me permitem “enxergar” tais “sinais”?
  • Ver os “sinais” parece não ser suficiente, perante a “estrela” os “magos” deixaram a sua casa para ir ao encontro da “luz”, será que sou capaz de ter a mesma atitude?
  • A epifania é a revelação universal de Jesus, recorda que Jesus não veio apenas para alguns, mas para todos, sem qualquer exceção. Será que tenho tido uma atitude missionária na minha fé?
3. ORATIO – oração
Ore por todos os missionários e missionárias que estão “encarregados” de levar esta “luz” a todos os povos, para que nunca desanimem em sua missão.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple as estrelas do céus, veja a maravilha do universo, pense como brilham para todos.

5. MISSIO – missão
“Lancemos um olhar para o novo ano que temos pela frente e imaginemos aquilo que nos parece que vai acontecer. Comecemo-lo bem e continuemos sempre assim, caminhando com entusiasmo.” José Allamano


 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Lectio Divina de Mateus 2,13-15.19-23 - Solenidade da Sagrada Família

Por: Patrick Silva, imc
Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu filho”. Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois já morreram aqueles que queriam matar o menino”. Ele levantou-se, com o menino e a mãe, e entrou na terra de Israel. Mas quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Depois de receber em sonho um aviso, retirou-se para a região da Galiléia e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: “Ele será chamado nazareno”. (Mateus 2,13-15.19-23)
1. LECTIO – Leitura
Um dia após a celebração do Natal, a liturgia já nos convida a refletir numa família com um recém nascido em fuga para o Egito.  O texto em consideração faz parte da seção do evangelho conhecida como “evangelho da infância”, onde encontramos relatos sobre a infância de Jesus. Convém notar que o interesse na infância de Jesus surgiu numa fase posterior da reflexão cristã. Assim, é importante recordar que o evangelista não está aqui dando a conhecer como as coisas aconteceram, mas uma catequese onde irá demostrar quem é Jesus.
Na base do texto proposto, estão uma série de citações do Antigo Testamento… Mateus parte daí para apresentar uma reflexão cujo objetivo é dizer quem é Jesus. Escrevendo para cristãos vindos do judaísmo, que conhecem bem o Antigo Testamento, Mateus recorre às antigas profecias para explicar quem é Jesus e qual a sua missão. Ao mesmo tempo, mostra como Jesus cumpriu plenamente essas antigas profecias. Uma parte significativa do nosso texto (Mt 2,13-15) está construída sobre Os 11,1 (“do Egito chamei o meu filho”). Mateus apresenta um conjunto de detalhes, a propósito deste episódio, que recordam os inícios da vida de Moisés: o massacre das crianças de Belém pelo rei Herodes (Mt 2,16-18) recorda a ordem do faraó de atirar ao Nilo os bebês hebreus do sexo masculino (veja Ex 1,22); a fuga do menino Jesus através do deserto (Mt 2,14) recorda a fuga do jovem Moisés através do deserto para salvar a vida (veja Ex 2,15); o regresso de Jesus do Egito quando já tinham morrido aqueles que queriam matá-lo (Mt 2,15) recorda o regresso de Moisés ao Egito quando já tinham morrido aqueles que queriam matá-lo (veja Ex 4,19)… Através destas referências, Jesus aparece como um novo Moisés, que libertará o novo Povo de Deus e que dará a nova Lei a esse Povo (veja Mt 5-7).
Por outro lado, Mateus põe também em paralelo o caminho de Jesus e o caminho do Povo de Israel. A fuga de José com Maria e o menino recorda a ida para o Egito da família de Jacob, que emigrou para o Egito por desígnio de Deus (veja Gn 46,1-7); como aconteceu com Israel, também Jesus sairá daí, chamado por Deus (Mt 2,19- 20), a fim de iniciar o novo e definitivo êxodo. Finalmente, o regresso de Jesus à terra de Canaan repete o caminho percorrido por Israel nos seus inícios… É uma forma de ensinar que, com Jesus, tem início um novo Povo de Deus e que Jesus será o libertador (ou o novo Moisés) que conduzirá esse Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
Não é clara qual a citação profética que está na base da parte final do nosso texto (“será chamado nazareno” – Mt 2,23), embora ela possa fazer referência a Jz 13,5 (“esse menino será nazireu de Deus desde o seio de sua mãe) e a Is 11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” – brotará das suas raízes”). Embora nem a citação de Juízes nem a citação de Isaías tenham nada a ver com Nazaré, Mateus usou-as pela semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus que, ao instalar-se em Nazaré (apesar de ter nascido em Belém), Jesus estava a cumprir as Escrituras e os desígnios de Deus. Fica, portanto, aqui definida a catequese que revela quem é Jesus e qual a sua missão… A presença constante de Deus conduzindo a história, enviando o seu mensageiro, comunicando com José através dos sonhos, revela que este menino vem de Deus e que tem uma missão de Deus. Qual é essa missão? É dar início a um novo Povo de Deus e, como Moisés, conduzir esse Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
Neste dia em que celebramos a Sagrada Família, convém também determo-nos um pouco sobre esta família de Nazaré. É uma família unida e solidária, que aceita enfrentar os perigos do deserto e o incomodo do exílio numa terra estrangeira, quando um dos membros corre riscos. Na família de Nazaré manifesta-se, desta forma, esse amor até ao extremo que supera todos os egoísmos e que se faz dom ao outro. Por outro lado, é uma família que escuta a Palavra de Deus, que está atenta aos sinais de Deus e que procura cumprir o projeto de Deus.

2. MEDITATIO – meditação
  • A família de Nazaré é apresentada como uma família unida e solidária. É assim a nossa família? Na nossa família há solidariedade? Sentimos os problemas do outro e empenhamo-nos seriamente em ajudá-lo a superar as dificuldades?
  • Trata-se também de uma família onde se escuta a Palavra de Deus e onde se aprende a ler os sinais de Deus… É na escuta da Palavra que esta família consegue encontrar as soluções para vencer as contrariedades e para ajudar os membros a vencer os riscos que correm; é na escuta de Deus que esta família consegue descobrir os caminhos a percorrer, a fim de assegurar a cada um dos seus membros a vida e o futuro. A nossa família tem tempo para ler e escutar a Palavra de Deus? A nossa família é uma família que reza?
  • A Sagrada Família é, ainda, uma família que obedece a Deus… Coloca nas mãos de Deus o seu futuro. A nossa família aceita com serenidade os esquemas e a lógica de Deus e percorre, com confiança, os caminhos de Deus?
3. ORATIO – oração
Na sua oração recorde todas as famílias que ainda hoje vivem em “fuga”, longe dos suas raízes, longe dos familiares procurando uma vida melhor que muitos nunca chegam a alcançar. Ore ao Senhor pela sua família, peça-lhe a coragem de ser uma família unida e solidária.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Continue contemplando a proposta do presépio, no silêncio deixe que Deus lhe fale pela simplicidade da cena.

5. MISSIO – missão
“Chegámos ao fim de mais  um ano e, como qualquer administrador, devemos fazer o balanço das nossas ações, tendo em conta o ativo e o passivo. Quantos favores recebidos ao longo destes 365 dias! Dêmos graças a Deus por tudo!” José Allamano


Lectio Divina de João 1,1-18 - Natal do Senhor

Por: Patrick Silva, imc
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Veio um homem, enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos pudessem crer, por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Esta era a luz verdadeira, que vindo ao mundo a todos ilumina. Ela estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a reconheceu. Ela veio para o que era seu, mas os seus não a acolheram. A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus: são os que crêem no seu nome. Estes foram gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que recebe do seu Pai como filho único, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho dele e proclama: “Foi dele que eu disse: ‘Aquele que vem depois de mim passou à minha frente, porque antes de mim ele já existia’”. De sua plenitude todos nós recebemos, graça por graça. Pois a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer. (João 1,1-18)
1. LECTIO – Leitura
Após uma caminhada de quatro semanas preparatórias, eis que chega o Natal, dia de festa, de alegria, de fé. É hora de celebrar a presença deste Deus entre nós. O Natal de hoje festeja outras coisas e esquece aquele que deu origem à festa. Nós cristão não podemos nos deixar levar por tais atitudes, precisamos nos centrar no Jesus menino. A liturgia de Natal quer nos ajudar neste caminho.
Os primeiros cristãos frequentemente elaboraram hinos para expressar e celebrar a sua fé. O texto, em consideração, do evangelho de João é um belo exemplo. Trata-se de um hino cristológico que expressa a fé da comunidade em Cristo enquanto Palavra viva de Deus, a sua origem eterna, a sua procedência divina, a sua influência no mundo e na história, possibilitando à humanidade que O acolhe e escuta tornar-se “filha de Deus”. Ao longo do evangelho, João, irá desenvolver todos os temas apresentados neste hino.
O hino começa com a expressão “no princípio”, tal recorda o relato da criação que encontramos em Gn 1,1, dando uma chave de interpretação… Ou seja, o que o evangelista irá apresentar sobre Jesus está relacionado com a obra criadora de Deus. Melhor, em Jesus vai acontecer a definitiva intervenção criadora de Deus no sentido de dar vida plena à humanidade…
João apresenta, logo a seguir, a “Palavra” (“lógos”). A “Palavra” é uma realidade anterior ao céu e à terra, implicada já na primeira criação. Não só essa “Palavra” estava junto de Deus e colaborava com Deus, mas “era Deus”. Identifica-se totalmente com Deus, com o ser de Deus, com a obra criadora de Deus. Deus faz-Se inteligível através da “Palavra”. Essa “Palavra” é geradora de vida para a humanidade, concretizando o projeto de Deus.
Essa “Palavra” veio ao encontro da humanidade e fez-se “carne” (pessoa). O evangelista identifica claramente a “Palavra” com Jesus, o “Filho único cheio de amor e de verdade”, que veio ao encontro da humanidade. Em Jesus podemos contemplar o projeto ideal do ser humano. A “Palavra” “montou a sua tenda no meio de nós”. O verbo “skênéô” (“montar a tenda”) aqui utilizado alude à “tenda do encontro” que, na caminhada pelo deserto, os israelitas montavam nos seus acampamentos e que era o local da presença de Deus no meio do seu Povo (veja Ex 27,21; 28,43; 29,4…). Agora, a “tenda de Deus”, é Jesus. Quem quiser encontrar Deus e receber d’Ele vida em plenitude (“salvação”), a irá encontrar em Jesus.
A função dessa “Palavra” é acender a luz que ilumina o caminho da humanidade, possibilitando-lhe encontrar a vida verdadeira. Jesus Cristo vai, no entanto, deparar-se com a oposição à “vida/luz” que Ele traz. Ao longo do Evangelho, João irá contando essa história do confronto da “vida/luz” com o sistema injusto e opressor que pretende manter a humanidade prisioneira do egoísmo e do pecado. Recusar a “vida/luz” significa preferir continuar a caminhar nas trevas (que se identificam com a mentira, a escravidão, a opressão), independentemente de Deus; significa recusar chegar a ser homem/mulher pleno, livre, criação acabada e elevada à sua máxima potencialidade.
O acolhimento da “Palavra” implica a participação na vida de Deus. João diz mesmo que acolher a “Palavra” significa tornar-se “filho/a de Deus”. Começa, para quem acolhe a “Palavra”/Jesus, uma nova relação entre o homem/mulher e Deus, aqui expressa em termos de filiação: Deus dá vida em plenitude à humanidade.

2. MEDITATIO – meditação
  • Acolher a “Palavra” é deixar que Jesus nos dê a vida plena, a fim de nos tornarmos, verdadeiramente, “filhos/as de Deus”. Será que o Natal nos recorda este compromisso de acolher esta “Palavra”?
  • Ainda hoje a “Palavra” continua a confrontar-se com atitudes geradores de morte que procuram afastar-nos da verdadeira vida, como é que me posiciono perante tudo o que é contrário à vida plena?
  • Jesus é para nós a “Palavra” suprema que dá sentido à nossa vida, ou deixamos que outras “palavras” nos levem a procurar a felicidade por outros caminhos?
3. ORATIO – oração
A transformação da “Palavra” em “carne” é a espantosa aventura de um Deus que ama de uma forma incompreensível e que aceitou revestir-se da nossa humanidade a fim de nos dar vida em plenitude. Neste dia, somos convidados a contemplar, numa atitude de serena adoração, esse incrível passo de Deus, expressão extrema de um amor sem limites.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple o presépio, atente naquele menino pequenino que é o filho de Deus que vem até nós para ser como nós.

5. MISSIO – missão
“O Natal não é uma festa só para crianças; é para todos. Se queremos entrar no reino dos céus temos de nos fazer como as crianças. O próprio Jesus, sendo tão grande, não desdenhou de se fazer menino.” José Allamano


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lectio Divina de Mt 1, 18-24 - 4º Domingo do Advento

Por: Patrick Silva, imc

Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente. Mas, no que lhe veio esse pensamento, apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus-conosco”. Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa. (Mateus 1,18-24)

1. LECTIO – Leitura

O quarto domingo de Advento conclui a preparação às festividades do Natal, esta última semana é a derradeira etapa deste percurso preparatório. Ao longo deste tempo foi proposto “preparar” o caminho do Senhor, talvez até já tenhamos comprados os presentes de Natal, mas será que já “preparamos” o “presente” para Jesus?

O texto que é proposto pertence ao chamado “evangelho da infância”. Não se trata de um relato jornalístico dos eventos acontecidos naquela época, pois o interesse do evangelista não era esse, mas sim uma catequese para recordar a vinda salvadora do filho de Deus. Para bem entendermos o texto, precisa também ter alguns dados culturais da época em relação à situação de Maria e José. O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro; só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo (as cerimônias do matrimônio propriamente dito)… Entre as duas etapas poderia haver um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo uma penalidade. Durante a primeira fase, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um caráter estável, de tal forma que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (veja Dt 22,23-27)… E a união entre os dois “prometidos” só podia dissolver-se com a fórmula jurídica do divórcio. Ora, segundo o texto que nos é proposto, José e Maria estavam na situação de “prometidos”: ainda não tinham celebrado o matrimônio, mas já se tinham comprometido.

Segundo a narração de Mateus, José descobriu que Maria estava grávida, ainda antes que tivessem celebrado o casamento. Como sabia não ser o pai do bebê que estava para chegar, resolveu abandonar Maria, em segredo; mas um anjo do Senhor apareceu-lhe em sonhos e esclareceu o mistério: “Aquele que vai nascer é fruto do Espírito Santo”. O anúncio do anjo a José (vs. 20-24) segue o esquema dos relatos do Antigo Testamento, em que se anuncia o nascimento de uma personagem importante (veja Jz 13): a) o anúncio está rodeado de sinais divinos; b) que provocam medo e espanto; c) o mensageiro divino anuncia qual será o nome e a missão da criança que vai nascer; d) dá-se um sinal que confirma o anúncio. O intuito deste esquema é vincular a personagem, desde o seu nascimento, com o projeto divino. Este mesmo esquema é, aliás, usado por Lucas para descrever o nascimento de João Baptista (veja Lc 1,5- 25). Neste episódio temos, portanto, não uma descrição de acontecimentos históricos, mas uma catequese sobre Jesus. Então, o que é que esta catequese procura ensinar? Fundamentalmente, procura mostrar que Jesus vem de Deus; qual a sua missão: o nome que lhe é atribuído mostra que Ele vem de Deus com uma proposta de salvação para a humanidade (“Jesus” significa “Deus salva”). Fica certo, também, que Ele é o Messias de Deus, da descendência de David, que os profetas anunciaram.

A figura de José desempenha aqui um papel muito interessante… O anjo dirige-se a ele como “filho de David” (v. 20) e pede-lhe que receba Maria e que coloque um nome na criança (v. 21). A imposição do nome é o rito através do qual um pai recebe uma criança como seu próprio filho. Assim, Jesus passa a fazer parte da família de David e a ser, naturalmente, a esperança para a restauração desse reino pelo qual todo o Povo ansiava. Pela obediência de José, realizam-se os planos e as promessas de Deus ao seu Povo.

2. MEDITATIO – meditação

• O que espero com a vinda de Jesus?

• O Natal tornou-se a festa do consumismo! O Natal para mim o que é? Será que também tenho contribuído para que o Natal seja apenas uma festa consumista? Como tem sido a minha preparação a este Natal?

• As personagens de Maria e José mostram duas pessoas abertas e disponíveis ao projeto de Deus. É essa a minha atitude de disponibilidade aos desafios de Deus? Sou capaz de dizer todos os dias “sim”, de forma a que, através de mim, Deus possa nascer no mundo e salvar a todos?

• José e Maria já tinham planos para a sua vida, porém, a vinda de Deus “perturbou” esses planos, aliás, causou uma mudança radical desses planos. Estarei disposto a que Deus mude os meus planos pessoais? Ou os mesmo planos pessoais estão acima de tudo?

3. ORATIO – oração
José e Maria são colocados aqui como modelos para nossa preparação ao Natal. Este casal permitiu que Deus mudasse a sua vida, deixaram de lados os seus projetos, talvez sonhos e aceitaram o projeto, o sonho de Deus. Na sua oração peça perdão pelas vezes em que busca apenas os seus projetos. Peça a Deus que o ajude a aceitar os planos que Deus reservou para você.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
Contemple a personagem de José no silêncio. Não é homem de muitas palavras; um homem discreto e simples para a escritura. No entanto, é um exemplo pela disponibilidade em aceitar o projeto de Deus.

5. MISSIO – missão
“Precisamos de pessoas generosas, enérgicas e perseverantes. São dons que Deus concede a quem o ama. São características do missionário.” José Allamano

 

Os símbolos de Natal (parte 1)


Quantas imagens, quantos símbolos vem ocupar a nossa imaginação neste tempo de preparação ao Natal de Jesus. Vamos tentar resgatar o sentido de algumas destas imagens, procurando o sentido que elas têm com o mistério que celebramos no Natal.


1) A LUZ

O que chama a nossa atenção são, em primeiro lugar, as luzes. Não há um edifício, até árvores da rua que não sejam iluminados. Natal é a festa da luz.

Jesus nasce durante a noite, segundo a Tradição que se fundamenta nos versículos do livro da Sabedoria: “Quando um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite mediava o seu rápido percurso, tua Palavra onipotente lançou-se, guerreiro inexorável, do trono real dos céus para o meio e uma terra de extermínio” (Livro da Sabedoria 18, 14-15). Jesus que nasce na noite é a Luz do mundo... “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas” (João 8, 12). E o velho Simeão, no dia da apresentação de Jesus no Templo, proclamará: “Meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos; luz para iluminar as nações” (Lucas 2, 30-32).

Assim, como o nascimento de Jesus é festejado durante a noite, é preciso iluminar a noite com velas acesas. Jesus vem para iluminar as nossas trevas: “Com a Palavra estava a Vida e a Vida era Luz dos homens. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la. A luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo” (João 1, 4-5 e 9). Ele é o sol da justiça anunciado pelo Profeta Malaquias: “Mas para vocês brilhará o sol de justiça, que tem a cura em seus raios” (Malaquias 3, 20).

Têm o mesmo sentido as bolas coloridas que penduramos nas árvores de Natal. Elas iluminam de todas as cores e espalham a alegria. Seria bom se nós colocássemos bolas das cinco cores dos cinco continentes: verde da África, branco da Europa, amarelo da Ásia, azul da Oceania e vermelho das Américas. Jesus é a luz de todas as nações.


2) A ESTRELA

A estrela é outro símbolo de luz, mas ela é também na esperança messiânica dos Judeus, um sinal do Messias. De fato lemos no livro dos Números a profecia de Balão: “Eu o vejo, mas não é agora; eu o contemplo, ãs não de perto: uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de Israel” (Números 24, 17).

Assim os intérpretes dos Livros Sagrados sempre entenderam que o Messias que Deus enviaria para guiar o seu povo, seria como uma estrela. Nós também hoje dizemos de uma pessoa que ela é uma estrela quando ela se destaca no meio das outras, quando ela tem bastante liderança. Falamos também de alguém cuja fama vai aumentando que “sua estrela está subindo”. Assim, no meio dos Judeus, a estrela se tornou o símbolo do líder que Deus haveria de enviar para governar o seu povo. Como o Evangelista Mateus queria afirmar aos Judeus que Jesus de Nazaré foi bem o Messias esperado, ele escreveu que a sua estrela foi vista: “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, alguns Magos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: onde está o recém-nascido rei dos Judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos para prestar-lhe homenagem... Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia diante deles, até que parou sobre o lugar onde estava o menino... Ao verem de novo a estrela, os Magos ficaram radiantes de alegria” (Mateus 2, 1-2 e 9-10).

Para Mateus Jesus não é somente o Messias, o Líder dos Judeus, Ele é também o Messias, o Líder universal.

Todos nós somos convidados a seguir a estrela que é Jesus se nós quisermos encontrar o caminho que leva ao Pai: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11, 27).

Bom é notar que no livro de Mateus, os Magos não são nem três, nem reis. São tradições que vieram mais tarde, na tentativa de dar mais detalhes ao acontecimento narrado por Mateus. Esta tradição se apóia no Salmo 72: “Todos os reis se prostrarão diante dele. Que ele viva e lhe seja dado o ouro de Sabá” (Salmo 72, 10-11 e 15). Também o profeta Isaías tem palavras semelhantes: “Uma horda de camelos te inundará, todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso” (Isaías 60, 6). Ademais, na Mesopotâmia (Oriente), os magos eram como astrólogos, estudiosos dos sinais nas estrelas e astros para guiar os reis nas suas decisões e os povos no caminho da prosperidade.

3) A ÁRVORE

O Messias vem par devolver a Vida, e a Vida plena à Humanidade que não soube guardar os caminhos da Vida. No jardim de Éden, a Vida era transmitida por uma árvore, a árvore da Vida: “Deus disse: o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que ele agora não estenda a mão e colha também da árvore da Vida, e coma, e viva para sempre... Deus expulsou o homem do jardim e colocou diante do jardim os Querubins para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3, 22-24).

Jesus é a árvore da vida, pois é dele que podemos agora receber a vida em plenitude. “Eu sou a verdadeira videira e vocês são os ramos... o ramo que não permanecer unido ao tronco não dá fruto. Ele será cortado e jogado ao fogo, Sem mim nada podeis fazer” (João 15, 1-6).

O Reino de Deus é também uma árvore, frondosa e grande onde os pássaros do céu podem se aninhar (Mateus 13, 32). O justo é como uma árvore plantada na beira do rio: “dá fruto no tempo devido e suas folhas nunca murcham” (Salmo 1, 3).

Quando o reino de Deus for totalmente realizado, então a árvore da Vida estará de novo no meio do jardim, e haverá outras árvores plantadas na beira das águas e estas árvores estarão cheias de vida. “No meio da praça, de cada lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas dão frutos doze vezes por ano; todo mês elas frutificam; suas folhas servem para curar as nações” (Apocalipse 22, 2).Na Europa. A festa de Natal sempre ocorre em pleno inverno, época em que as árvores, na sai maioria, perdem a sua folhagem e ficam desnudadas durante vários meses. A única árvore a permanecer verde é o pinho, e as árvores de sua espécie. Por isso a árvore de Natal é geralmente um pinho: árvore que permanece verde e simboliza a Vida que não se acaba, a Vida trazida por Jesus: “Eu vim para todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

...continuaremos com outros símbolos na próxima semana
aguarde e confira!!!

sábado, 11 de dezembro de 2010

O feitiço contra o feiticeiro *

Por: FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

Certo dia o rato do campo chegou à beira da lagoa, a fim de matar a sede. O tempo era de colheita, e por isso o roedor estava gordo, muito gordo, resultado do tanto se fartar na seara alheia, dia sim e outro também. Ao vê-lo aproximar-se uma rã encheu-se de idéias tenebrosas e por isso chegou-se ao recém-chegado e iniciou com ele uma conversa em que falava das belezas e maravilhas com que o lago encantava seus moradores, coisas que os animais não-aquáticos infelizmente não podiam ver. Nesse momento, assim como se de repente ela tivesse descoberto algo em que ainda não havia pensado, a rã convidou o rato a conhecer sua casa, que não ficava distante dali, para confirmar a veracidade do que afirmava.

Este, curioso como são todos os da sua espécie, animou-se de pronto com aquela sugestão, mas logo em seguida ponderou que tal visita era impossível, uma vez que ele, ao contrário de sua companheira, sendo péssimo nadador, não teria como acompanhá-la no percurso a ser feito dentro d’água. Mas a rã não se deu por achada, e retrucou que se o problema era aquele, então já estava resolvido. E indo até o mato que crescia ao lado de onde os dois estavam, trouxe de lá um pedaço de palha seca com o qual amarrou a perna direita do rato à sua perna esquerda. Isso feito, os dois então entraram n’água.

Assim que se afastaram alguns metros da margem a rã tentou mergulhar e chegar ao fundo, certa de que dessa forma afogaria o rato, mas este, percebendo a má-intenção da criatura a que se achava amarrado, resistiu o quanto pode, debatendo-se na superfície com todo o vigor e energia que conseguia reunir. E como ele lutava energicamente para manter-se à tona, a rã não conseguia fazê-lo submergir com a rapidez desejada, e assim ficaram os dois, uma puxando para baixo, e o outro dando braçadas desesperadas, espargindo, com isso, água em todas as direções.

Foi quando um gavião de vista aguçada sobrevoou a região, e percebendo que o rato já quase sendo engolido pelas águas não tinha como lhe escapar, lançou-se sobre ele como uma flecha, prendeu-o firmemente em suas garras e ganhou altura novamente, carregando consigo não só a presa capturada, mas junto com ela a rã mal intencionada. E assim, lá se foi a ave voando rumo a seu canto, satisfeita por ter garantido de uma só vez, carne e peixe para a sua ceia.

Moral da história: Às vezes, quando a maldade é muita, acontece do feitiço virar contra o feiticeiro.

* Baseado em uma história de La Fontaine.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lectio Divina do texto de Mt 11,2-11 - 3º Domingo do Advento

Por: Patrick Silva, imc

Ora, João Batista, estando na prisão, ouviu falar das obras do Cristo e mandou alguns discípulos para lhe perguntar: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recuperam a vista, paralíticos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres se anuncia a Boa-Nova. E feliz de quem não se escandaliza a meu respeito!” Enquanto os enviados se afastavam, Jesus começou a falar às multidões sobre João: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Olhai, os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim, eu vos digo, e mais do que profeta. Este é de quem está escrito: ‘Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho diante de ti’. Em verdade, eu vos digo, entre todos os nascidos de mulher não surgiu quem fosse maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. (Mateus 11,2-11)

1. LECTIO – Leitura
O terceiro domingo do Advento é conhecido como o “domingo da alegria”, este nome vem do convite que trás a primeira leitura à alegria. A personagem principal do evangelho continuará sendo João Batista. O capítulo 11 do evangelho marca uma nova seção no texto de Mateus, até agora o evangelista se esforçou por mostrar o anúncio do “reino dos céus”, a partir de agora vai mostrar como Jesus o “reino dos céus” é manifestado nas ações e gestos de Jesus. O episódio começa com a informação de que João Batista está na prisão e com a pergunta que os seus enviados fazem a Jesus. João Baptista fora preso por ordem de Herodes Antipas, a quem o Baptista havia criticado por viver com a própria cunhada. A pergunta dos enviados de João tem como objetivo esclarecer se Jesus é o Messias ou se devem continuar esperando. A pergunta não é sem sentido. João esperava um Messias que viesse lançar fogo, castigar os maus e os pecadores, dar início ao “juízo de Deus” (veja Mt 3,11-12); e, ao contrário, Jesus aproximou-Se dos pecadores, dos marginais, dos impuros, estendeu-lhes a mão, mostrando-lhes a misericórdia de Deus. João e os seus discípulos estão perplexos com a atuação de Jesus, que os deixa um tanto confusos: será que Jesus é mesmo o Messias ou um outro deve ser aguardado? ?O texto de Mateus procura também dar uma resposta aos discípulos de Jesus que por aquela data ainda estavam “ativos”, dizendo-lhes que Jesus é o verdadeiro Messias e que devem se juntar ao grupo dos seus discípulos.

O texto é facilmente dividido em duas partes… Na primeira, Jesus responde à pergunta de João e dá a entender que Ele é o Messias (vs. 2-6); na segunda, temos a opinião de Jesus sobre a figura João Batista(vs. 7-11). A resposta de Jesus dá a entender que ele tem consciência de ser o Messias. Na sua resposta, Jesus recorre a uma série de citações do profeta Isaías que definem a ação do Messias enviado de Deus: dar vida aos mortos (veja Is 26,19), curar os surdos (veja Is 29,18), dar vista aos cegos, dar liberdade de movimentos aos coxos (veja Is 35,5-6), anunciar a Boa Nova aos pobres (veja Is 61,1). Ora, se Jesus realizou tais obras (veja Mt 8-9), é porque Ele é o Messias.

Na segunda parte, temos a declaração de Jesus sobre o Baptista. Mateus utiliza um recurso retórico muito conhecido: uma série de perguntas que convidam os ouvintes a dar uma resposta concreta. A resposta às duas primeiras questões é, evidentemente, negativa: João não é um pregador oportunista. A resposta à terceira é positiva: João é um profeta e mais do que um profeta. A declaração, que começa com uma referência à Escritura (veja Ex 23,20; Mal 3,1) pretende clarificar qual a relação entre ambos e o lugar de João no “Reino”: João é o precursor do Messias; é “Elias”, aquele que tinha de vir antes, a fim de preparar o caminho para o Messias (veja Mal 3,23-24)… No entanto, aqueles que entraram no “Reino” através do seguimento de Jesus são mais do que Ele.

2. MEDITATIO – meditação
Os “sinais” que Jesus realizou devem ser agora continuados pelos seus discípulos e discípulas. São muitos os “surdos”, “mudos” “coxos”, “mortos” que esperam uma palavra de salvação. Será que estou comprometido neste anúncio e agir salvífico?

Mais uma vez, somos interpelados e questionados pela figura de João Batista… Ele não é alguém que vai com as “modas”… Mas é um profeta, que recebeu de Deus uma missão e que procura cumpri-la, com fidelidade e sem medo. A minha vida e o meu testemunho profético também são assim ou vou ao sabor das tendências?

A “dúvida” de João acerca de Jesus ser ou não o Messias revela a honestidade deste homem, que ficou procurando a verdade. Devemos ter medo daqueles que têm certezas inamovíveis, que estão absolutamente certos das suas verdades. Sou capaz de me interrogar? Capaz de ouvir as dúvidas dos outros? Sou capaz de dialogar?

3. ORATIO – oração
A missão hoje deixou de ser tendência, de ser moda, mesmo assim, somos convidados a nos sentir engajados neste anúncio libertador do Reino de Deus que vem ao encontro de todos, sem qualquer tipo de exceção. Na sua oração ore para que se torne cada vez mais missionário em sua oração e ação.

4. CONTEMPLATIO – contemplação
A figura de João Batista é de novo proposta como exemplo para nossa caminhada de advento. O tempo está se completando. Contemple este mistério de Deus que vem, às vezes, agindo de um jeito que não pensávamos fosse possível.

5. MISSIO – missão
“Uma das principais qualidades do missionário é a determinação e a força de vontade. Para ser verdadeira missionário é preciso ter vontade firme e ser constante. Deus não tolera as meias-vontades; estas jamais conseguirão realizar coisa alguma.” José Allamano

Disponível semanalmente em http://www.consolata.org.br/